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terça-feira, 22 de junho de 2010

Ainda Saramago...

Ainda não houve tempo para as transmontaneidades desta semana, mas não queria deixar passar a oportunidade da viagem de Saramago ao nosso Concelho. Depois de registar as impressões da Vila e da Igreja dirige-se à Adeganha e diz assim:

Esta estrada vai dar à aldeia de Estevais, depois a Cardanha e Adeganha. O viajante não pode parar em todo o lado, não pode bater a todas as portas a fazer perguntas e a curar das vidas de quem lá mora. Mas como não sabe nem quer despegar-se dos seus gostos e tem a fascinação do trabalho das mãos dos homens, vai até à Adeganha, onde lhe disseram que há uma preciosa igrejinha românica, assim deste tamanho.
(...)
Enfim, a igreja é esta. Não caiu em exagero quem a gabou. Cá nestas alturas, com os ventos varredores, sob o cinzel do frio e da soalheira, o templozinho resiste heroicamente aos séculos. Quebraram-se-lhe as arestas, perderam feição as figuras representadas na cachorrada a toda a volta, mas será difícil encontrar maior pureza, beleza mais transfigurada. A Igreja da Adeganha é coisa para ter no coração, como a pedra amarela de Miranda.

Foto: N.Campos, anos 90

terça-feira, 15 de junho de 2010

Recém-criada Academia de Letras de Trás-os-Montes com moncorvenses entre os fundadores

Nasceu, no passado sábado, aquando da XXI feira do Livro de Bragança, a Academia de Letras de Trás-os-Montes.
Esta ideia, "apadrinhada" pela Câmara Municipal de Bragança, reuniu várias personalidades trasmontanas ligadas às artes e letras, entre os quais os nossos ilustres conterrâneos António Manuel Monteiro (grão-mestre da Confraria dos Gastrónomos e Enófilos de Trás-os-Montes, e autor de vários livros e artigos de especialidade) e Rogério Rodrigues (escritor e jornalista, tendo sido um dos fundadores do Público, tal como este jornal salientou em notícia sobre este assunto).

Aqui fica a notícia do Público (12.06.2010):

«'É uma forma de reafirmar as identidades que temos que são, no fundo, a nossa salvação'. Foi com este toque dramático que Amadeu Ferreira, dirigente da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e desde há muito defensor da língua mirandesa, este sábado se referiu à Academia das Letras de Trás-os-Montes, na sessão que oficializou a sua criação, no Centro Cultural de Bragança. Uma academia que, segundo o autarca de Bragança, Jorge Nunes, será apenas a segunda do género inscrita na Academia de Ciências de Lisboa e que, de acordo com Adriano Moreira, um dos seus fundadores, “nos momentos de crise o recurso às identidades aparece como fundamental”. Por isso, “esta academia inscreve-se nesta consciência de que esse é o facto”. “O que está em crise na Europa e em Portugal é o Estado e não a identidade. E são as identidades que precisam de ser defendidas porque são a pedra de base para a reorganização que precisamos”, sublinhou, no seu discurso.
Esta Academia junta escritores como Barroso da Fonte (Montalegre), Ernesto Rodrigues (Torre de D. Chama), Modesto Navarro (Vila Flor) ou Jorge Tuela (Vinhais), ou o jornalista Rogério Rodrigues (que esteve na equipa fundadora do PÚBLICO e é de Torre de Moncorvo), e inclui já parceiras com a Academia Galega da Língua Portuguesa, a Casa de Estudos Luso-Amazónicos (Brasil) e a Academia de Letras e Artes de Bragança do Pará (Brasil).»

Artigo de António G. Rodrigues, in Público, 12.06.2010 > ver mais em: http://publico.pt/Cultura/academia-das-letras-de-trasosmontes-nasce-para-salvar-identidade-da-regiao_1441650

Veja aqui outras notícias sobre este acontecimento:

Rádio Brigantia: http://www.brigantia.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=4017

Portal da Língua /Associaçom Galega da Lingua: http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=2520:nasce-a-academia-de-letras-de-tras-os-montes&catid=2:informante&Itemid=74

Na foto: Medalha comemorativa da Fundação da Academia de Letras de Trás-os-Montes

Etnobotânica - um livro que importa reeditar

«Nas últimas décadas surgiu nos países mais desenvolvidos um vivo e apetente interesse pelo estudo e investigação, consumo e produção destas 'ervas' tão mágicas quanto úteis e imprescindíveis ao sentido da vida.
E, se em tempos remotos o misticismo das 'ervas' não ia muito além das utilizações práticas - medicinais, cosméticas ou aromáticas - mais tarde, com a arte dos jardins, acrescentou-se-lhes também o prazer da comtemplação e da estética enquanto plantas de jardim.
Actualmente, com a afirmação da ciência, a utilização sistemática dos recursos naturais e a valorização da busca da harmonia com a natureza, ficaram abertos amplos e crescentes campos de aplicação - na indústria farmacêutica, perfumaria e cosmética.
Em Portugal, o renovado interesse que se manifesta pelas virtualidades das ervas bravias comestíveis, a partir dos anos 80 coincide, como em todo o mundo, com o nosso máximo desenvolvimento socio-económico. E, em Trás-os-Montes e Alto Douro, onde as tradições e os saberes da memória colectiva fizeram perdurar as ousadas e fascinantes utilizações destas 'ervas' tão simples quanto altivas ou sublimes, o interesse científico, económico e aprazível é também real, frutífero e benéfico.
(...) E, foi no seio de um dos vários projectos [projecto "Plantas aromáticas, medicinais e condimentares/INTERREG II] que resultou esta pequena e modesta obra que queremos que seja oportuna e utilitária, não para mentes hábeis, mas para pessoas práticas.
No entanto, este livro resulta ainda dos mistérios subtis da filosofia do nosso povo que tantas vezes regulava a sua existência segundo o ritmo da natureza ou, sem qualquer constrangimento, daqueles ensinamentos sábios da maravilhosa 'arte de viver' (...)».

- Foi com estas sábias palavras que o nosso conterrâneo Engº. António Manuel Monteiro (técnico superior da DRATM) abriu o livro Etnobotânica, plantas bravias, comestíveis, condimentares e medicinais, de que foi co-autor, juntamente com o Prof. Doutor José Alves Ribeiro (UTAD) e Drª Maria de Lurdes Fonseca da Silva, numa edição de João Azevedo/Mirandela, datada de 2000.
Esta obra encontra-se infelizmente esgotada, embora possa ser consultada, juntamente com outros livros sobre esta temática, na exposição ora patente no auditório do Museu do Ferro (- o nosso agradecimento ao nosso amigo Américo Monteiro pelo empréstimo).

Além da caracterização científica de muitas espécies da nossa região, o livro referido tem o particular mérito de recolher muitos conhecimentos da chamada "sabedoria popular" (que o é, efectivamente), tanto a nível de utilizações gastronómicas como da farmacopeia. Muito pertinente, num tempo em que tanto se fala em "cultura imaterial".
Apelamos aos autories e ao editor, o nosso amigo Roger, que pensem numa rápida reedição, dado o especial interesse desta obra.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Quadros da Emigração - Londres

West Norwood School

Ontem, dia 26 de Maio, almocei na companhia do Tim, um dos responsáveis pelo Festival anual “Readers and Writers”, que ocorre em Lambeth durante o mês de Maio, e do Keith, o jovem bibliotecário da West Norwood Library, num restaurante Português de Lambeth. Sem ementa específica a lembrar a mesa tradicional portuguesa, bebi, contudo, um sumo Compal de maçã e o Tim dirigiu-se ao balcão para pedir um expresso e um pastel de natas. Ficou a saber que a delícia que degustava era o pastel mundialmente conhecido e muito apreciado. Pelos vistos, também por ele. Com aquela pausa para almoço, tipicamente portuguesa, partimos reforçados para a Escola Secundária (West Norwood School), onde nos esperava um grupo de alunos portugueses de mão-cheia. Entretanto, deixámos o Keith na biblioteca a preparar as perguntas que me haveria de colocar, ainda nessa mesma tarde, na sessão de apresentação de Outros Contos da Montanha e a repetir algumas frases em português para agraciar o público em sua língua materna.
Após alguns minutos de espera, vem ao nosso encontro Sam, que é o professor responsável pela realização do evento e acolhimento de Outros Contos da Montanha na Escola. À entrada da sala, duas adolescentes enquanto esperavam discutiam a formação do feminino referente à palavra escritor. Decidiram-se por escritora, mas riam-se dizendo que já não se lembravam. Não seria bem assim, porque foram os dois elementos com maior participação durante a sessão. Perguntaram-me de imediato qual o meu nome e eu perguntei-lhes um a um o de todos, querendo igualmente saber donde vinham. Chegavam de todos os lados, desde a Madeira, Lisboa, Barreiro, Setúbal, Porto… Eu apresentei-lhes a minha terra, a nossa terra, e falei-lhes da vegetação dos nossos montes, da urze e doutras plantas e das pessoas (transmontanas) que inspiraram estes contos. Disse-lhes que me identificava com aquele lugar e que lhes queria mostrar a sua riqueza, as suas tradições, o seu conto da tradição oral… E aí eles foram lendo em voz alta “O Rapaz e a Víbora” . Alguns com alguma dificuldade e outros de forma mais desenvolta, deram alma e vida àquele texto na sua sala de aula. Por fim, à laia de sumário feito no final da lição, perguntei se haveria um voluntário que quisesse resumir a história em apenas algumas frases. Fê-lo uma das meninas da indecisão entre escritor/escritora de forma escorreita e eficaz.
Penso que se colheram frutos, pois dali tiraram-se duas vertentes da mesma moral da história. Uma delas, saída da boca da rapariga e da narradora, diz que não se deve trair a amizade, neste caso o amor e a lealdade à nossa língua, porque é o meio por excelência de identidade e de cultura, ou seja, “a nossa pátria”. A outra, a que o professor proferiu em forma de “confessada” conversa: “Muitos dos alunos que aqui estiveram nunca se atreveram a participar numa aula, nunca leram em voz alta e nem sequer levantaram o braço”. E acrescentou: “Penso que para eles foi muito importante que a sua própria cultura chegasse, batesse à porta e se instalasse na sala de aulas”.
Eu digo obrigada a todos e espero que o interesse permaneça para que possam ler a versão integral do livro que se encontra na Biblioteca da escola.
Continuação de boa leitura!...

domingo, 23 de maio de 2010

Isabel Mateus presente no festival de Leitores e Escritores de Lambeth (Reino Unido)

A nossa conterrânea e colaboradora deste blogue, Isabel Mateus, vai estar presente no prestigiado Festival de Leitores de Escritores de Lambeth, ou, em inglês, o Lambeth Readers and Writers Festival (Londres, Reino Unido), o qual está a decorrer desde o passado dia 19 de Maio.
Este certame realiza-se anualmente na autarquia de Lambeth, uma das mais densamente povoadas freguesias interiores de Londres, com uma população de cerca de 270.000 habitantes. Com base no censo de 2001, 38% da população de Lambeth são provenientes de minorias étnicas, a sétima percentagem mais alta de um bairro de Londres. Cerca de 150 línguas são aí faladas, sendo o Português, depois do Inglês, umas das mais faladas, a par do Ioruba (dialecto africano nigero-congolês), do Francês, Espanhol e Twi (dialecto africano da zona do Ghana). O território de Lambeth inclui outras circunscrições, tais como: Croydon, Merton, Southwark, Wandsworth e Westminster.
Entre outros escritores, ingleses e não só, Isabel Mateus foi uma das escolhidas e irá apresentar a sua obra "Outros contos da montanha", já no próximo dia 26 de Maio (próxima quarta-feira), na Biblioteca de Norwood Ocidental (West Norwood Library). Primeiramente estará numa Escola Secundária da zona, cujo coordenador, Mr. Sam Holmes, é um falante da língua portuguesa e conhecedor da obra de Miguel Torga que estudou na Universidade de Cambridge.
A obra a que a autora se irá referir ("Outros contos da montanha") já foi apresentada em Torre de Moncorvo, encontrando-se referenciada, por exemplo, em:
Aqui fica agora uma recensão para o público inglês, retirado do "site" do Festival de Lambeth (http://www.lambeth.gov.uk/Services/LeisureCulture/Libraries/ReadersWritersFestival.htm):

«Outros Contos da Montanha (Other tales of the Mountain) with Isabel Maria Fidalgo Mateus

Wednesday 26 May, 6pm at West Norwood Library.

"Outros Contos da Montanha" is a book composed by 36 short stories dealing with the rural life in North East Portugal. As a whole the stories represent the different aspects of the cultural and social life of the community since past times, passing through the harsh period of the Portuguese Dictatorship (1928 to 1974).

Isabel was a teacher in Portugal for 10 years before moving to the UK in 2001 where she completed a PhD and now lectures at Liverpool University. She is the author of three books. She has been working with Portuguese speaking schoolchildren in Lambeth and here talks about her book and the experience of emigration. Not only will Isabel be discussing her work but would also like to hear the stories of other Portuguese migrants for inclusion in her next book».

Esperemos que os moncorvenses, trasmontanos e portugueses em geral a trabalhar na zona de Londres, comparecem a este evento, apoiando a nossa conterrânea.
____
Nota: incluímos aqui esta notícia e o excerto em inglês, uma vez que sabemos que o 2º. país com maior número de visitas ao nosso blogue (a seguir a Portugal) é o Reino Unido. - Um grande abraço para os nossos conterrâneos aí nessas paragens!

domingo, 16 de maio de 2010

Quadros da transmontaneidade (9)

Durante a tarde, em hora que não fira o santo préstito, o futebol há-de ajustar contas com as gentes da aldeia vizinha, ou então, entre solteiros e casados a marcar rivalidades mais benignas, hoje inexistentes e, talvez por isso, substituídas pelas poeirentas mangas de motocross. À saída da igreja formar-se-á uma “ringoleira” de anjos e andores. A banda não faltará logo atrás do santo padroeiro e, um mar de gente segui-lo-á, engrossando à medida que as ruas forem sendo percorridas. As colchas alindarão as varandas e as ruas serão estreitas para tanto devoto. Um foguete, de quando em vez, aterrorizará a passarada e alegrará a canzoada fazendo-os crer que a caça começou. As rezas entremearão com umas marchas musicais em compasso retardante, também elas a fazer-nos regressar ao interior, à nossa condição de mortais, mas que depressa desaparecerá logo à noite, no arraial, depois de se acenderem as luzes. Nas encruzilhadas os mais velhos, que ainda usam chapéu, destaparão a cabeça à passagem do andor, os seus pegadores, à aproximação de um crente a pretender alfinetar a fita com um nota de 50, fazem-no descer ao nível dos humanos, obrigando-os a um exercício de equilíbrio e a um esforço suplementar.Terminará já com as sombras alongadas e uma descarga de morteiros anunciará a todos o seu fim. (Continua…)

ANTÓNIO SÁ GUÉ

sábado, 8 de maio de 2010

Quadros da transmontaneidade (8)


Lá pelo Verão, quando os dias são longos e as noites curtas, agradece-se ao céus, por mais um ano de colheitas, por o bem ter vencido o mal, por ainda se estar vivo. Junta-se o sagrado e o profano, o material e o espiritual e faz-se festa ao santo padroeiro que tantas graças lhes trouxe ao longo do ano.Tudo é previsível: o programa é a tradição. Pela manhã cedo há-de um morteiro anunciar a alvorada. A banda há-de percorrer as ruas empedradas, uma leve brisa encarregar-se-á de fazer esvoaçar as fitas de papel que as engalanam, os sons melodiosos entrarão pelas casas dentro, as mulheres hão-de assomar aos postigos a vê-la passar, os homens, de passo estugado, marcharão logo atrás, à laia de procissão, e os velhos, já na praça, hão-de finalmente desentupir os empedernidos ouvidos com o presto final. Depois é a vez dos sinos repicarem, clamarem pelos fiéis, a igreja encher-se-á, o padre na prédica específica, que se impõe, valorizará os actos beatíficos do santo de tanta devoção e, para que ninguém falte, anunciará do “altar p'ra baixo” o horário da procissão, que também ela há-de percorrer as ruas durante a tarde que se anuncia tórrida. O altifalante, previamente instalado, ajudará a festa debitando catadupas de roufenhos decibéis ao longo de todo o santo dia.

(Continua…)
ANTÓNIO SÁ GUÉ

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Flores de Constantino

A propósito deste maravilhoso tempo primaveril, em que as flores desempenham um papel preponderante (veja-se a quantidade de post's publicados recentemente têm aludido a elas), é justo lembrarmo-nos aqui do moncorvense "Rei dos Floristas", cujas flores tiveram fama internacional e de que, segundo a tradição, resta um bouquet feito por ele, guardado na Igreja da Misericórdia de Moncorvo.


Para ficar a conhecer mais sobre o percurso deste Homem extraordinário, é obrigatório ler o interessante estudo da Dra. Júlia de Barros Ribeiro (Biló): "Constantino, Rei dos Floristas. Uma quási-biografia", publicado em 2003, numa co-edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e Magno edições (de cuja contracapa se extraiu a imagem que vai acima, fotografia original da Drª. Helena Pontes/Chefe de divisão de Cultura e Turismo de Torre de Moncorvo).

Recentemente encontramos também uma referência a Constantino, na biografia "D. Luís", editada pelo Círculo de Leitores (2006), da autoria de Luís Nuno Espinha da Silveira e Paulo Jorge Fernandes, a propósito das cerimónias da recepção, em Lisboa, de D. Maria Pia, rainha de Portugal, em 1862:

"Os reis foram recebidos no Cais das Colunas, debaixo do pálio da Câmara Municipal, dirigindo-se ao pavilhão, aonde o presidente da Câmara Municipal (...) entregou as chaves da cidade ao rei que as ofereceu à rainha. Noticia ainda, o Jornal do Comércio, que «uma deputação da associação dos artistas lisbonenses ofereceu à augusta Rainha um belo ramo de flores artificiais feito pelo rei dos floristas portugueses, Constantino»." (in: Op. cit, pp. 57-58).

por: Leonardo

domingo, 25 de abril de 2010

Quadros da transmontaneidade (6)

Há bem pouco eram emigrantes, hoje, felizmente, são cidadãos da Europa, mas a marca desse tempo ficou no nosso consciente, faz também parte da nossa identidade, da nossa memória colectiva. Todos saíram. Ficavam mulheres velhos e crianças. Esse movimento foi, talvez, o primeiro sinal de abandono dos nossos nontes. Iam em debandada, carregavam com eles a doce crença de um futuro melhor. Todos regressavam lá pelo Verão, cheios de entono, prontos a idolatrar quem cantasse a sua odisseia no disco de vinil e na “cassete pirata”. Era vê-los, de tronco ao léu, a deitar argamassa e a assentar tijolo de uma “maison” que crescia à medida dos sonhos mas que feria pela forma e pelas cores. Era vê-los a ostentar uma “voiture” que quem por cá mourejava nunca teria possibilidade de adquirir. Era vê-los nas festas de orago a depositar francos gordos na fitas do andor de Nossa Senhora de Fátima. Era vê-los nas feiras a apreçar a mercância com palavras desconhecidas, porque a língua dos afectos, aquela que todos os anos os trazia de volta já não saía com facilidade.Eles eram os “avec”, ou melhor os “aveques”, eles eram granito serrano, eram o mais nobre granito transmontano mas que, por crime político, nunca lhe deram possibilidade de ser escodado.

ANTÓNIO SÁ GUÉ

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Hoje é o Dia Mundial do Livro!


Eis algumas sugestões de leitura, para saborear melhor Torre de Moncorvo...

terça-feira, 20 de abril de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Fauna com letras



“… o ouriço olfactava a manhã e rebolava-se por baixo da figueira frondosa, que também sorvia a seiva do ribeiro. Os picos, assim cravejados de frutos, competiam com a cesta carregada de figos que as mulheres, à hora do almoço ou no final da tarde, transportavam à cabeça, para casa.”

Isabel Mateus, O Ouriço - Cacheiro, in O Trigo dos Pardais

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Voo do "Trigo dos Pardais"

Isabel Mateus apresentou, ontem, o seu " Trigo dos pardais" na Escola Secundária de Vila Pouca de Aguiar, durante a parte de tarde. Já pelas 21.30h, fê-lo em Vila Real, no Grémio Literário Vilarealense. Neste local, Pires Cabral fez uma curta apresentação da autora, seguindo-se uma coloquial e agradável exploração da obra por Maria da Assunção Anes Morais. Já no final, depois das palavras de Isabel Mateus, lembraram-se os sabores moncorvenses com uns tragos de licor de vinho e umas crocantes amêndoas.


Assunção Anes, Isabel Mateus e A. M. Pires Cabral

Isabel Mateus nas suas considerações sobre os 22 contos e o espaço rural que lhes serviu de suporte.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um sábado cultural com "Trigo dos Pardais" (livro) e "Raiz de brinquedo" (exposição)

Abertura da sessão, pelo Sr. Presidente da Câmara (foto de João Pinto V. Costa)

Sábado, 10 de Abril, pelas 15;00h, decorreu no auditório da Biblioteca Municipal a apresentação do livro livro há muito esperado, "O Trigo dos Pardais" de autoria da nossa conterrânea e colaboradora do blogue, Doutora Isabel Mateus. Abriu a sessão o Sr. Presidente da Câmara, Engº. Aires Ferreira, elogiando o trabalho da autora, após o que passou a palavra à Doutora Assunção Anes Morais, autora do prefácio do livro.

A Drª. Assunção Anes fazendo a apresentação da autora e da obra (foto de João Pinto V. Costa)

Maria da Assunção Anes Morais é professora em Vila Real, sendo especialista na obra de Miguel Torga, um elo comum que a liga a Isabel Fidalgo Mateus, uma vez que ambas elaboraram as suas dissertações académicas em torna da obra daquele eminente escritor trasmontano. No caso de Isabel Mateus, quer em "Outros Contos da Montanha" (o seu livro anterior) quer agora em "O trigo dos pardais", tal como em Torga, é bem patente o telúrico apelo às raízes e ao "rincão sagrado". Como referiu a apresentadora, neste último trabalho perpassam, através dos contos evocativos das brincadeiras da infância (jogos populares infantis) muitos outros aspectos, como sejam a arquitectura rural, as ervas medicinais, a vida campestre associada à terra, aos animais (domésticos ou silvestres, como a raposa, o lobo, os ouriços cacheiros, os texugos) ou as árvores. Ressaltou a mensagem ecológica e o apelo à preservação do património cultural e natural que está subjacente à obra, terminando a sua intervenção dizendo que este livro, "O Trigo dos Pardais" convida-nos a passear pelos montes!"

Capa do livro e dobra lateral com biografia da autora

No uso da palavra, Isabel Fidalgo Mateus começou por explicar o título do livro, dizendo que se baseia no aforismo popular segundo o qual o primeiro trigo é sempre para os pardais, aves cosmopolitas que tanto se encontram em meio rural como urbano, e que afoitamente se introduzem no meio das galinhas para roubarem o trigo que podem. Mas aqui também se podem associar os pardais às crianças ladinas, que no meio rural de outros tempos criavam os seus próprios brinquedos e aprendiam os seus jogos com os mais velhos, normalmente passados de geração em geração. Aproveitou para referir que foi neste sentido que fez questão de associar à apresentação do seu livro uma exposição do Dr. João Pinto V. Costa (também nosso colega de blogue e matrimoniado no concelho de Torre de Moncorvo), a qual é composta por inúmeros brinquedos de madeira e confeccionados com elementos vegetais.
A complementar a intervenção, a autora mostrou numa apresentação em Powerpoint uma série de imagens das Quintas do Corisco, terra de sua naturalidade, algures do outro lado da serra do Roboredo, na freguesia de Felgueiras, o cenário idílico dos seus contos.
Foram ainda feitos os agradecimentos a todas as pessoas e entidades que tornaram possível esta edição. Destacamos a capa e as primorosas ilustrações de autoria de Cristina Borges Rocha.
Entre escritas: a autora escrevendo uma dedicatória ao ilustre escritor Professor Rentes de Carvalho (foto de João P. V. Costa)

No final, houve a inevitável sessão de autógrafos, encontrando-se entre o numeroso público o ilustre escritor Rentes de Carvalho que, tal como Isabel Mateus, é um "emigrante" que procura nas suas raízes a substância da expressão literária, revelando igual apego a estas fragas, na exacta medida do tempo e da distância em que permanecem "fora". Duas gerações de escritores trasmontanos no exterior, mas que não se conseguem desligar do tal "rincão".

Exposição "Raiz de Brinquedo" no Centro de Memória (foto de João Pinto V. Costa)

Depois de um beberete nos jardins da Biblioteca, foi inaugurada a exposição "Raíz de Brinquedo", de autoria de João Pinto V. Costa, na sala de exposições do Centro de Memória. O autor, sendo natural de Alpendorada (concelho de Marco de Canaveses) casou com uma moncorvense de Sequeiros (Açoreira), o que o levou a descobrir, desde há muito, quer as paisagens, quer a cultura popular da nossa região. Para mais, sendo professor em Vila Real, podemos dizer que Trás-os-Montes lhe está na alma. Além de docente, João Pinto é autor de alguns livros, de que se destaca "Flora de brincadeiras", que é uma espécie de catálogo dos trabalhos manuais que executa como "hobby", tendo como objectivo reproduzir antigos brinquedos/brincadeiras que se faziam para os garotos. Nesse afão, acaba mesmo por criar novos brinquedos, tirando sempre partido de elementos vegetais, em que a madeira também se inclui.
Outro aspecto da exposição (foto de João Pinto V. Costa)

Como escreveu Agostinho Chaves (in Mensagens Aguilarenses, 9/12/2008), citado no folheto que enquadra a exposição: "os brinquedos que João Pinto Vieira da Costa constrói são eternos. Quando não havia legos, nem consolas, nem sequer a 'Chicco' nem a 'Toys 'r Us' ou a 'Centroxogo', muito menos as grandes superfícies comerciais que deliciam os olhos das crianças e dão cabo das carteiras dos papás, as crianças brincavam muito mais, de forma mais divertida, por improvisada e criativa. Os seus brinquedos eram feitos do que havia: uma casca de noz, um vime, uma rolha de cortiça, uma carica, o canoco de um milheiro, uma raiz, a vareta de um guarda chuva desfeito pelo vento, uma pinha, um botão velho, um pedaço de arame, um arco de pipa velha abandonada, um ramos de árvore em Y, até uma meia em desuso que era cheia de palha e cozida na ponta, fazendo uma bola com que se jogava futebol. // Não admira que essas práticas (como a generalidade dos jogos populares) tivessem desaparecido, no avançar dos tempos em que o consumo cresceu e tomou conta de nós, através de cada vez mais atraentes e agressivas campanhas de 'marketing' e de publicidade" (...)

Um helicóptero feito com uma cabaça (foto de João Pinto V. Costa)
Esta exposição fica patente até ao mês de Maio - a não perder!!!
De caminho, é obrigatória a leitura do "Trigo dos Pardais", pois assim poderá o leitor entrar melhor no espírito da exposição.
Fica a proposta.

domingo, 11 de abril de 2010

Quadros da transmontaneidade (4)


O Fernandinho passava, rua abaixo, muito contrito, muito senhor do seu nariz. Não gostava de ser conluio nas bocas do mulherio que, ao soalheiro, aproveitava os primeiros raios de Sol de uma primavera que já tardava.
Mas nem assim se livrava. Mal ele desaparecia no canto do olho de todas elas havia logo quem murmurasse.
- Ele parece que não é bem feito... ele tem as pernas bambas...
Não havia nada que a coscuvilhice das abrigadas não conseguisse desvendar. “Olha que a mim não me engana!”, “Tu vê lá aquele descaradão!...”, tudo era esquadrinhado ao mais ínfimo pormenor. Fosse alto ao magro, com bigode ou sem bigode, tivesse ele ou não cão, fosse ele a cavalo no burro ou andasse sempre a pé.
Então aquele cantinho que a casa do Zé da Adega faz com o do Manel da Trapa é de primeira apanha. Junta-se a Ti Esprito-Santo, a Zabelinha e a do Florindo, todas elas já na casa dos “entas” e todas vestidas de negro, mais pareciam três cá-vais pousados no escadório de cantaria do balcão, aquilo é um ver se te avias constante. Tricotam com igual desembaraço os meotes, a colcha ou o traque.

ANTÓNIO SÁ GUÉ

( Foto: João Costa)

terça-feira, 6 de abril de 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quadros da transmontaneidade (3)

- Então o que é que agora fazes? – perguntou o homem do boné ao mais velho.
Não respondeu logo. Os músculos do rosto retesaram-se-lhe, fechou-se, baixou a cabeça e fincou o olhar na biqueira dos sapatos de atanado já esborcinados. Aquela pergunta parecia esmagar-lhe a alma. Era-lhe difícil revelar aquela sua fraqueza. Agora já não fazia nada, já não tinha forças para “fazer”, o tempo foi-se escoando sem dar por ela, agora, andava por aí... andava de café em café, de esquina em esquina, esperava pelo fim do tempo.

ANTÓNIO SÁ GUÉ

sexta-feira, 19 de março de 2010

Vítor da Rocha na FNAC - Porto

"Nina mina de ouro", o último livro do nosso conterrâneo Vítor da Rocha (de Carviçais), vai ser apresentado no próximo domingo, dia 21 de Março, pelas 16;00h, na FNAC de Santa Catarina, na invicta cidade do Porto.

Esta obra, editada pela Mosaico de Palavras, será apresentada pelo Dr. Álvaro Santos e terá a participação musical de Renata Gonçalves e Carlos Loureiro.

Sobre o conteúdo do livro, aqui fica uma breve sinopse:

"Em Nina Mina de Ouro seguimos a vida da suburbana Nina, que, graças à mais-valia dos seus dotes físicos, consegue alcançar o éden moderno – carro topo de gama e conta bancária robusta. Ainda que pelo caminho se vá despindo de tudo – ideais, marido, filha, mãe, amigos, simples objectos sem valor que só atrapalham a subida. É todo um modo de vida, ritmado pelos humores das coisas, das terras e das casas e pelas vozes dos vizinhos, que vai ficando para trás das costas da personagem, na sua impávida cavalgada para um objectivado além dourado. Na verdade, sempre houve destes crentes (in)felizes e afortunados no percurso da Humanidade. Mas eram apenas minúsculos grãos de areia no meio do enorme e amorfo oceano composto de honesta e desventurada arraia-miúda. Hoje, são mais que as mães, a ponto de se terem constituído em ideologia ou religião (não) oficial dos povos – satisfazer o umbigo, ainda que sobre o cadáver do outro. Ou o seu próprio

Uma violenta condenação da modernidade urbana, onde a condição de ter suplantou irremediavelmente a de ser".

quarta-feira, 17 de março de 2010

Emigração na literatura regional - 4

E para (momentaneamente) rematar este tema da emigração na literatura dos autores da região, nada melhor do que ficar com quem suscitou o assunto, ou seja, a Professora Isabel Mateus, respigando um excerto do epílogo do livro "Outros contos da montanha" (2009), intitulado "O lavar dos cestos":

«Regressava para morrer. Mas não sem antes cumprir a promessa. É que o Gandonha já não lhe poderia valer; agora era também ele só espírito no Paraíso e na Terra não havia mais ninguém que lhe saldasse a dívida.
Enquanto longe da Granja não se sentiu sozinha, porque nunca se separou da lembrança, do exemplo, da coragem e da autodeterminação com que os seus moradores enfrentavam as fatalidades e louvavam a alegria, quando também a recebiam. Emigrante torna-viagem trazia na bagagem essa mesma companhia e todas aquelas vivências do contacto com outras culturas e, ainda mais importante, com as pessoas. Muitas das viagens que não fez, completou-as nos livros de escritores-viajantes antigos e modernos e nas conversas que teve com os amigos espalhados pelo mundo.
Chegou nas férias de Verão à casa materna; agora sua e dos seus irmãos. De chave pronta na mão, abriu a porta principal e invadiu o silêncio sepulcral que dali emanava. Numa fúria arrebatada de fazer a luz do dia entrar, escancarou a janela das traseiras, que ligava a moradia ao ar fresco e puro da Serra do Valente. De seguida, num retrocesso premeditado, tirou o ferrolho à da fachada principal e os raios de sol faiscaram pelos quatro cantos da ampla sala. Repetiu este gesto pelos outros compartimentos e, até que a fria aragem da madrugada a aconselhasse que estaria na hora de cerrá-las, não houve fresta que se mantivesse fechada! (...)
Ela morreu realmente ali. Os seus ossos descansam no alto dos Lombinhos onde a torga, a carqueja, a giesta, a esteva, o alecrim, a bela-luz e o rosmaninho lhe aromatizam a sepultura, os pinheiros lhe fornecem a sombra e a abrigam da chuva e os pássaros a entretêm com a sua cantilena».
Tal como na lenda dos elefantes, não raro os que partiram fazem a última viagem para morrer no local de onde saíram.
N.Campos

terça-feira, 16 de março de 2010

Emigração na literatura regional - 3

Impõe-se um esclarecimento que deveria ter sido feito ao início: ao falarmos em "literatura regional" queremos dizer "feita por autores naturais da nossa região, ou com origens nela, e que a ela, a região, se reportam com frequência nas suas obras, inspirando-se nas nossas realidades actuais ou de há muitos anos". De modo algum se poderá fazer uma leitura futebolística - longe de nós! - de haver um escalão "regional" aquém de outras ligas. Até porque A. Sá Gué e Vítor da Rocha são, para nós, escritores de nível nacional, para não falar de mais outro grande escritor que hoje aqui trazemos, a propósito deste tema e que, como veterano, tem uma "internacionalização" de longa data (antes até de começar a ser mais conhecido - felizmente - nos nossos "relvados" da escrita nacional): José Rentes de Carvalho.

J. Rentes de Carvalho foi, de facto, um "emigrante de luxo" que acabou como reputado escritor e professor universitário na Holanda, país que vai repartindo, em termos de afectos e de estadia, com est'outro nosso país trasmontano. Sorte igual não teve o pobre Amadeu "Gato", dos Estevais do Mogadouro, personagem do seu livro "A amante holandesa", que acabou como estivador no porto de Amesterdão, antes de, arrampanado, acabar a guardar cabras nas terras das suas origens. Mas, para aguçar o apetite, aqui fica um trecho em que se relata a odisseia de um "estevaleiro" regressado das Holandas, onde viveu uma paixão assolapada com uma holandesa, de que resultou uma filha que um dia veio conhecer as terras das origens do "pai pródigo":

«Ele gosta de falar de Amsterdam. Do porto. Da gente que, ao vê-la pelos seus olhos e tão diferente da nossa, se me afigura irreal.
'Quem for fraco não se aguenta ali', diz ele, baixando a cabeça e cerrando um instante os olhos, como para afastar recordações penosas.
Ele aguentou-se. Vinte e tantos anos que pareceram longos e agora se lhe afigura terem passado num sopro. Quando lhe deram a reforma veio-se embora, mas hoje...
'Hoje se pudesse, metia-me no avião e em duas horas já lá estava. Eu vejo-os passar aqui por cima da nossa terra, e quando voam naquela direcção digo comigo: olha, mais um que vai para a Holanda. São as saudades, sabe. Também porque deixei lá a outra e a filha'.
'Mas não poderias ao menos...'
Ele, baixando os olhos: 'Escrever não sei. Telefonar também me custa. com certeza nem me entenderiam, porque desde que vim esqueci quase tudo. Mas não, deixe lá... Há-de ser o que Deus quiser'».
in: A Amante Holandesa, editora Escritor, 2003, p. 19.
O "Gato" morreu. Um dia, ao seu confidente e amigo de infância, professor em Bragança, apareceu-lhe uma mocinha holandesa, toda "vamp" e cheia de "piercings", a querer saber coisas sobre o pai português que nunca conheceu. - Se quiser saber o resto, as aventuras e desventuras de um emigrante das nossas terras nas míticas europas civilizadas, e o que aconteceu depois, este livro é obrigatório!
N.Campos