O Arraial: a arrematação
De léguas a porras um foguete ribombará nos ares. Por conta do inesperado estrondo as consciências estremecerão e os olhares convergirão.
Lá pelas 23 horas a impaciência de muitos estará no auge: a banda de música pretenderá tocar a última rapsódia e despedir-se daqueles que a acompanharam ao longo do dia. Os AND SO ON continuarão a afinar as cordas, como que a justificar a sua existência. A rapaziada, que quer abanar o capacete, aproximar-se-á deles. O arrematador de serviço, imune a tudo, continuará a leiloar, a despachar para dizer bem e depressa, as últimas prendas ainda eiradas nas prateleiras improvisadas:
- Quanto vale esta? Olhem só esta beleza… - o desmesurado gabanço às ofertas transformadas em mercancia, continuará. As piadas, as simulações de entrega, o incentivo para dar mais 1, tudo ampliado pelo zurrante, o alto-
-falante, sobrepor-se-ão à zoada de fundo das conversas cruzadas.
O gabarrista de serviço sente que está sozinho e passará, finalmente, a palavra à banda que, em jeito de marcha triunfante, seguirá rua abaixo e entrará na carreira do Santos quando os AND SO ON afugentarem os mais velhos.
(Continua)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
sábado, 12 de junho de 2010
Quadros da transmontaneidade (12)
O Arraial: a arrematação
A praça fervilhará de vida. Uma constelação de luzes, ao dependuro, a abanar levemente pela aragem que faz ”coscas” na face, aquecerá a noite e criará a ilusão da existência de um mundo iridescente, pleno de felicidade.
O alto-falante calar-se-á para dar lugar à banda de música. O mestre de braços no ar suspenderá o tempo por breves instantes e, quando lhe parecer todos estarem atentos, dará a entrada por que todos anseiam. Um enxame de gente convergirá para o coreto improvisado. O tachim… tachim … dos pratos e o pum… pum… do bombo penetrará na noite e todos se deixarão enlevar pelo mundo fantástico dos sentidos. Os mais ousados darão um pezinho de dança. Quando já todos estiverem rendidos à maviosidade daquele mundo, como que a provar que não há bela sem senão, logo o arrematador de serviço dará início à venda das prendas, e sempre com um ar galhofeiro dirá:
– Para aqueles que têm fome, aqui está este maravilhoso salpicão, uma dúzia de papos-secos, uma garrafa de vinho… tudo oferecido pela Maria dos Prazeres. Quanto vale?
O mais novo da Albertina, que anda “embeiçado” por ela, cheio de fome, abre a contagem. Levantará a mão, abrirá três dedos e dirá: “trinta”.
O do Acácio, que também não lhe desagrada, mandará mais dez. E num despique constante a conta vai crescendo, primeiro de dez em dez, depois de cinco em cinco. Quando um deles começar a dar sinal de fraqueza o arrematador de serviço, sempre atento aos pequenos sinais, continuará, agora ainda mais lentamente, de um em um para, finalmente, quando a carteira de um deles já não suportar o peso há-de entregar a almejada prenda por duas notas de 50 num verdadeiro clímax, de quem já não consegue suportar a força do elástico esticado até ao limite de ruptura.
A impaciência já sente no ar. Uns acordes da guitarra eléctrica aumentam a ansiedade dos mais novos que se vão aglomerando no outro lado da praça.
(Continua…)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
A praça fervilhará de vida. Uma constelação de luzes, ao dependuro, a abanar levemente pela aragem que faz ”coscas” na face, aquecerá a noite e criará a ilusão da existência de um mundo iridescente, pleno de felicidade.
O alto-falante calar-se-á para dar lugar à banda de música. O mestre de braços no ar suspenderá o tempo por breves instantes e, quando lhe parecer todos estarem atentos, dará a entrada por que todos anseiam. Um enxame de gente convergirá para o coreto improvisado. O tachim… tachim … dos pratos e o pum… pum… do bombo penetrará na noite e todos se deixarão enlevar pelo mundo fantástico dos sentidos. Os mais ousados darão um pezinho de dança. Quando já todos estiverem rendidos à maviosidade daquele mundo, como que a provar que não há bela sem senão, logo o arrematador de serviço dará início à venda das prendas, e sempre com um ar galhofeiro dirá:
– Para aqueles que têm fome, aqui está este maravilhoso salpicão, uma dúzia de papos-secos, uma garrafa de vinho… tudo oferecido pela Maria dos Prazeres. Quanto vale?
O mais novo da Albertina, que anda “embeiçado” por ela, cheio de fome, abre a contagem. Levantará a mão, abrirá três dedos e dirá: “trinta”.
O do Acácio, que também não lhe desagrada, mandará mais dez. E num despique constante a conta vai crescendo, primeiro de dez em dez, depois de cinco em cinco. Quando um deles começar a dar sinal de fraqueza o arrematador de serviço, sempre atento aos pequenos sinais, continuará, agora ainda mais lentamente, de um em um para, finalmente, quando a carteira de um deles já não suportar o peso há-de entregar a almejada prenda por duas notas de 50 num verdadeiro clímax, de quem já não consegue suportar a força do elástico esticado até ao limite de ruptura.
A impaciência já sente no ar. Uns acordes da guitarra eléctrica aumentam a ansiedade dos mais novos que se vão aglomerando no outro lado da praça.
(Continua…)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
sábado, 29 de maio de 2010
Quadros da transmontaneidade (11)
A Festa: O Arraial - 2
A noite, finalmente, chegará. De passo apressado todos convergirão para a praça, uma estranha excitação percorrer-lhes-á a alma. Os mais novos, provavelmente, serão fervilhares hormonais, será como se naquela noite tudo pudesse acontecer, como se a namorada dos seus sonhos pudesse vir a revelar-se, finalmente poderá tocar-lhe, sentir a sua pele macia, poderá estar com ela aos olhos de todos. Os mais velhos, que já pouco esperam da vida, será algo mais racional, será um sentimento de relaxamento, como se a sua vida cansativa se pudesse alterar. Por uma noite poderão esquecer a fadiga de um ano inteiro.
As rotinas serão alteradas. Até os viciados da sueca da mesa do canto do "Café Central" desaparecerão para deixar sentar uns forasteiros, que ninguém conhece, com gosto pela cerveja e amendoins.
Na praça os alto-falantes continuarão a debitar decibéis até que a banda inicie a actuação da noite. De quando em vez uma voz masculina surgirá a anunciar a necessidade de o dono do carro de matrícula tal comparecer na cabine de som, para logo depois os roufenhos sons subirem de tom e voltarem a misturar-se com a vozeada do povo já aglomerado, saboreando a calidez da noite e o repasto da vida alheia.
(Continua…)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
A noite, finalmente, chegará. De passo apressado todos convergirão para a praça, uma estranha excitação percorrer-lhes-á a alma. Os mais novos, provavelmente, serão fervilhares hormonais, será como se naquela noite tudo pudesse acontecer, como se a namorada dos seus sonhos pudesse vir a revelar-se, finalmente poderá tocar-lhe, sentir a sua pele macia, poderá estar com ela aos olhos de todos. Os mais velhos, que já pouco esperam da vida, será algo mais racional, será um sentimento de relaxamento, como se a sua vida cansativa se pudesse alterar. Por uma noite poderão esquecer a fadiga de um ano inteiro.
As rotinas serão alteradas. Até os viciados da sueca da mesa do canto do "Café Central" desaparecerão para deixar sentar uns forasteiros, que ninguém conhece, com gosto pela cerveja e amendoins.
Na praça os alto-falantes continuarão a debitar decibéis até que a banda inicie a actuação da noite. De quando em vez uma voz masculina surgirá a anunciar a necessidade de o dono do carro de matrícula tal comparecer na cabine de som, para logo depois os roufenhos sons subirem de tom e voltarem a misturar-se com a vozeada do povo já aglomerado, saboreando a calidez da noite e o repasto da vida alheia.
(Continua…)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
domingo, 23 de maio de 2010
Quadros da transmontaneidade (10)
A Festa: O Arraial - 1
O arraial começou antes, muito antes, das luzes acenderem. Começou com longas discussões na casa da junta para concluir qual a banda filarmónica e a banda rock a contratar. Começou num conflito de gerações, benigno, para definir se o arraial devia ser abrilhantado, em primazia, pela banda de Sobrado, ou pelos AND SO ON, que nada tocam, apenas gritam, no dizer dos mais velhos.
– Aixe... atão aquilo é que é música? – interrogava-se o Ti Marcolino, quando se lembrava das ondas sonoras de uma guitarra eléctrica, pouco afinada, que lhe entravam pelos ouvidos dentro e lhe esborraçavam os tímpanos.
A noite é pequena para conter duas bandas ao desafio, um conjunto “rockeiro” para satisfazer as vontades dos mais novos, a cantar em inglês, que é mais fixe, como se só essa língua carregasse poesia, e ainda por cima, a incomodativa mas sempre lucrativa arrematação das prendas que as raparigas casadouras haviam de oferecer.
Hoje, essas guerrilhas estão ultrapassadas, o poder local, conquista de Abril, toma decisões e paga.
(Continua...)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
O arraial começou antes, muito antes, das luzes acenderem. Começou com longas discussões na casa da junta para concluir qual a banda filarmónica e a banda rock a contratar. Começou num conflito de gerações, benigno, para definir se o arraial devia ser abrilhantado, em primazia, pela banda de Sobrado, ou pelos AND SO ON, que nada tocam, apenas gritam, no dizer dos mais velhos.
– Aixe... atão aquilo é que é música? – interrogava-se o Ti Marcolino, quando se lembrava das ondas sonoras de uma guitarra eléctrica, pouco afinada, que lhe entravam pelos ouvidos dentro e lhe esborraçavam os tímpanos.
A noite é pequena para conter duas bandas ao desafio, um conjunto “rockeiro” para satisfazer as vontades dos mais novos, a cantar em inglês, que é mais fixe, como se só essa língua carregasse poesia, e ainda por cima, a incomodativa mas sempre lucrativa arrematação das prendas que as raparigas casadouras haviam de oferecer.
Hoje, essas guerrilhas estão ultrapassadas, o poder local, conquista de Abril, toma decisões e paga.
(Continua...)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
domingo, 16 de maio de 2010
Quadros da transmontaneidade (9)
Durante a tarde, em hora que não fira o santo préstito, o futebol há-de ajustar contas com as gentes da aldeia vizinha, ou então, entre solteiros e casados a marcar rivalidades mais benignas, hoje inexistentes e, talvez por isso, substituídas pelas poeirentas mangas de motocross. À saída da igreja formar-se-á uma “ringoleira” de anjos e andores. A banda não faltará logo atrás do santo padroeiro e, um mar de gente segui-lo-á, engrossando à medida que as ruas forem sendo percorridas. As colchas alindarão as varandas e as ruas serão estreitas para tanto devoto. Um foguete, de quando em vez, aterrorizará a passarada e alegrará a canzoada fazendo-os crer que a caça começou. As rezas entremearão com umas marchas musicais em compasso retardante, também elas a fazer-nos regressar ao interior, à nossa condição de mortais, mas que depressa desaparecerá logo à noite, no arraial, depois de se acenderem as luzes. Nas encruzilhadas os mais velhos, que ainda usam chapéu, destaparão a cabeça à passagem do andor, os seus pegadores, à aproximação de um crente a pretender alfinetar a fita com um nota de 50, fazem-no descer ao nível dos humanos, obrigando-os a um exercício de equilíbrio e a um esforço suplementar.Terminará já com as sombras alongadas e uma descarga de morteiros anunciará a todos o seu fim. (Continua…)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
ANTÓNIO SÁ GUÉ
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sábado, 8 de maio de 2010
Quadros da transmontaneidade (8)
Lá pelo Verão, quando os dias são longos e as noites curtas, agradece-se ao céus, por mais um ano de colheitas, por o bem ter vencido o mal, por ainda se estar vivo. Junta-se o sagrado e o profano, o material e o espiritual e faz-se festa ao santo padroeiro que tantas graças lhes trouxe ao longo do ano.Tudo é previsível: o programa é a tradição. Pela manhã cedo há-de um morteiro anunciar a alvorada. A banda há-de percorrer as ruas empedradas, uma leve brisa encarregar-se-á de fazer esvoaçar as fitas de papel que as engalanam, os sons melodiosos entrarão pelas casas dentro, as mulheres hão-de assomar aos postigos a vê-la passar, os homens, de passo estugado, marcharão logo atrás, à laia de procissão, e os velhos, já na praça, hão-de finalmente desentupir os empedernidos ouvidos com o presto final. Depois é a vez dos sinos repicarem, clamarem pelos fiéis, a igreja encher-se-á, o padre na prédica específica, que se impõe, valorizará os actos beatíficos do santo de tanta devoção e, para que ninguém falte, anunciará do “altar p'ra baixo” o horário da procissão, que também ela há-de percorrer as ruas durante a tarde que se anuncia tórrida. O altifalante, previamente instalado, ajudará a festa debitando catadupas de roufenhos decibéis ao longo de todo o santo dia.
(Continua…)
ANTÓNIO SÁ GUÉ
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sábado, 1 de maio de 2010
Quadros da transmontaneidade (7)
– Aquilo é que é uma banda... – dizia o ti Joaquim quando se referia à banda da aldeia vizinha para justificar o seu pensamento – e o mestre, aquele sim, até já tem o conservatório.
– Mas atão como é que a gente faz, se nem gente temos? – replicou o Ti Raposinho.
– Se não vai o Maomé à montanha vem a montanha ao Maomé. Arremedam-se soluções, chamam-se os músicos da terra vizinha e assim continua a parecer que a terra ainda tem viço.
Noutros tempos, quando a gente era aos punhados podiam faltar instrumentos, mas não faltavam rapazes a deixarem-se enlevar pelos ademanes amaviosos da musa Euterpe, aquilo mais parecia uma prova iniciática de adultidade. Hoje é precisamente o inverso, não faltam instrumentos, falta é gente para os tocar. Nesse tempo, mal a primeira penugem do queixal despontava e o buço começava a escurecer, a necessitar de ser untado com merda de pita preta, ou até antes, lá ia o raparigo à Casa da Junta receber as primeiras aulas de solfa do Ti Pincherina. Seja como for, não há povoado aninhado nos talvegues ou debruçado na encosta soalheira dos montes que não tenha, ou aspire a ter, uma grande banda. Aquele gosto pela música ninguém lhe conhece a origem, é grande, muito profundo, está na natureza das coisas: como poderiam as amendoeiras florir sem os sons mágicos da flauta? Como amareleceriam as mimosas sem os “sis” sustenidos do clarinete?
A origem era de certeza essa porque mal despontava a Primavera logo se ouviam as primeiras “opaniões” dos arraiais, das arruadas, das festas já ajustadas que vinham com o Verão e também das que faltava ajustar.
– Mas atão como é que a gente faz, se nem gente temos? – replicou o Ti Raposinho.
– Se não vai o Maomé à montanha vem a montanha ao Maomé. Arremedam-se soluções, chamam-se os músicos da terra vizinha e assim continua a parecer que a terra ainda tem viço.
Noutros tempos, quando a gente era aos punhados podiam faltar instrumentos, mas não faltavam rapazes a deixarem-se enlevar pelos ademanes amaviosos da musa Euterpe, aquilo mais parecia uma prova iniciática de adultidade. Hoje é precisamente o inverso, não faltam instrumentos, falta é gente para os tocar. Nesse tempo, mal a primeira penugem do queixal despontava e o buço começava a escurecer, a necessitar de ser untado com merda de pita preta, ou até antes, lá ia o raparigo à Casa da Junta receber as primeiras aulas de solfa do Ti Pincherina. Seja como for, não há povoado aninhado nos talvegues ou debruçado na encosta soalheira dos montes que não tenha, ou aspire a ter, uma grande banda. Aquele gosto pela música ninguém lhe conhece a origem, é grande, muito profundo, está na natureza das coisas: como poderiam as amendoeiras florir sem os sons mágicos da flauta? Como amareleceriam as mimosas sem os “sis” sustenidos do clarinete?
A origem era de certeza essa porque mal despontava a Primavera logo se ouviam as primeiras “opaniões” dos arraiais, das arruadas, das festas já ajustadas que vinham com o Verão e também das que faltava ajustar.
ANTÓNIO SÁ GUÉ
Foto: João Costa
domingo, 25 de abril de 2010
Quadros da transmontaneidade (6)
Há bem pouco eram emigrantes, hoje, felizmente, são cidadãos da Europa, mas a marca desse tempo ficou no nosso consciente, faz também parte da nossa identidade, da nossa memória colectiva. Todos saíram. Ficavam mulheres velhos e crianças. Esse movimento foi, talvez, o primeiro sinal de abandono dos nossos nontes. Iam em debandada, carregavam com eles a doce crença de um futuro melhor. Todos regressavam lá pelo Verão, cheios de entono, prontos a idolatrar quem cantasse a sua odisseia no disco de vinil e na “cassete pirata”. Era vê-los, de tronco ao léu, a deitar argamassa e a assentar tijolo de uma “maison” que crescia à medida dos sonhos mas que feria pela forma e pelas cores. Era vê-los a ostentar uma “voiture” que quem por cá mourejava nunca teria possibilidade de adquirir. Era vê-los nas festas de orago a depositar francos gordos na fitas do andor de Nossa Senhora de Fátima. Era vê-los nas feiras a apreçar a mercância com palavras desconhecidas, porque a língua dos afectos, aquela que todos os anos os trazia de volta já não saía com facilidade.Eles eram os “avec”, ou melhor os “aveques”, eles eram granito serrano, eram o mais nobre granito transmontano mas que, por crime político, nunca lhe deram possibilidade de ser escodado.
ANTÓNIO SÁ GUÉ
ANTÓNIO SÁ GUÉ
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Quadros da transmontaneidade
sábado, 17 de abril de 2010
Quadros da transmontaneidade (5)

Ainda não andava nos dezoito quando partiu. Por lá andou, também foi daqueles que insatisfeito com a avareza da terra partiu à cata de melhor sorte. Não esperava encontrar nenhuma mina de ouro como aqueles que andaram lá pelos “Brasis”, mas “aldemenos” que desse para “adubar” com largueza o caldo. E conseguiu-o, depois de uma dúzia de anos aos “impontões” de uns e de outros, quer dizer depois de aturar filhos de muitas mães. Com os primeiros francos pagou caro umas oliveiras ao Dr. Armando, depois “mercou” um amendoal no Vale do Corcho, depois uma horta, refez o “cardenho” que foi o único “herdanço” do pai, que “Deus tem” e, por fim, voltou. Não quis café nenhum, isso é para mandriões. Voltou às raízes, ao princípio, se é que alguma vez de lá saiu. Voltou a embrenhar-se nos modos de vida ancestrais. Voltou a reger-se pelas leis do tempo. O apego à terra era um sentimento que não sabia explicar. Sim!, ela nunca lhe deu nada, bem pelo contrário, até a infância lhe tirou, mas havia uma atracção atávica, dir-se-ia imorredoura, que o puxava para aqueles montes.
ANTÓNIO SÁ GUÉ
ANTÓNIO SÁ GUÉ
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Trás-os-Montes
domingo, 11 de abril de 2010
Quadros da transmontaneidade (4)

O Fernandinho passava, rua abaixo, muito contrito, muito senhor do seu nariz. Não gostava de ser conluio nas bocas do mulherio que, ao soalheiro, aproveitava os primeiros raios de Sol de uma primavera que já tardava.
Mas nem assim se livrava. Mal ele desaparecia no canto do olho de todas elas havia logo quem murmurasse.
- Ele parece que não é bem feito... ele tem as pernas bambas...
Não havia nada que a coscuvilhice das abrigadas não conseguisse desvendar. “Olha que a mim não me engana!”, “Tu vê lá aquele descaradão!...”, tudo era esquadrinhado ao mais ínfimo pormenor. Fosse alto ao magro, com bigode ou sem bigode, tivesse ele ou não cão, fosse ele a cavalo no burro ou andasse sempre a pé.
Então aquele cantinho que a casa do Zé da Adega faz com o do Manel da Trapa é de primeira apanha. Junta-se a Ti Esprito-Santo, a Zabelinha e a do Florindo, todas elas já na casa dos “entas” e todas vestidas de negro, mais pareciam três cá-vais pousados no escadório de cantaria do balcão, aquilo é um ver se te avias constante. Tricotam com igual desembaraço os meotes, a colcha ou o traque.
ANTÓNIO SÁ GUÉ
( Foto: João Costa)
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Quadros da transmontaneidade (3)
- Então o que é que agora fazes? – perguntou o homem do boné ao mais velho.
Não respondeu logo. Os músculos do rosto retesaram-se-lhe, fechou-se, baixou a cabeça e fincou o olhar na biqueira dos sapatos de atanado já esborcinados. Aquela pergunta parecia esmagar-lhe a alma. Era-lhe difícil revelar aquela sua fraqueza. Agora já não fazia nada, já não tinha forças para “fazer”, o tempo foi-se escoando sem dar por ela, agora, andava por aí... andava de café em café, de esquina em esquina, esperava pelo fim do tempo.
ANTÓNIO SÁ GUÉ
segunda-feira, 29 de março de 2010
Da transmontaneidade (2)
Depois da luz fenecer as cores dos montes morrem, mergulham nas trevas mas nem por isso os sinais de vida desaparecem. Não tardarão a surgir tremeluzires dos povoados distantes, barulhos misterioros de faunos, halos de luz longínquos Além-dos-Montes. Mas não é necessário haver luz para sentir a sua sempiterna existência. Deixe-se levar pelas asas da imaginação: percorra canados e ladeiras, sinta o silêncio das pedras e fraguedos, oiça o marulhar das ribeiras. Sinta a frescura da brisa depois de um dia Verão. Deixe passar o árido cieiro, espevite os sentidos com um dia de inverniça, sinta-se humano ao acender uma fogueira, olhe ao longes e quando encontrar beleza na aridez da paisagem será capaz de entender os seus segredos.por: ANTÓNIO LOPES
http://antoniosague.blogspot.com/
foto: N.Campos (entre o Larinho e o Sabor)
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sábado, 20 de março de 2010
Da transmontaneidade (1)

Hoje falo-te das gentes. Falo-te daqueles que nunca foram à escola mas que nada têm de ignorantes. Falo-te daqueles que de tanto cavarem deram forma redonda a esses montes que tanto aprecias. Daqueles que das fragas foram capazes de fazer hortas e do xisto fizeram vinho, conheces? Falo-te daqueles a quem o jugo da vida vergou mas nunca dobraram a espinha, sabes quem são? Falo-te daqueles que sentem o coração acelerar com o abrolhar do plantio e todos os dias amaldiçoam as ervas daninhas. Falo-te daqueles que deram vida às fontes e no sussurrar dos ribeiros foram capazes de escutar o aiar aflitivo de mouras encantadas, de cavaleiros perdidos, que desde sempre souberam dar nome verdadeiro às coisas, captar a sua essência, intuir os mistérios do tempo pelas nuvens e pelas estrelas cintilantes. Daqueles que desde sempre trajam de negro e, ao fim da tarde, se sentam serenamente e esperam que a noite chegue...
ANTÓNIO SÁ GUÉ
Fotografia: João Costa
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