quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vem aí o S. Martinho de Maçores!

Para falar das festas de S. Martinho de Maçores, que se iniciam no próximo dia 11 de Novembro, nada melhor do que dar a palavra a um maçorano, o nosso Amigo e ilustre gaiteiro Filipe Camelo, a quem agradecemos a seguinte descrição, respigada do fórum de Maçores (www.macores.pt.vu):

Para quem não sabe, em Maçores celebra-se o S. Martinho, que é o orago da freguesia. Esta festa, que se realiza a 11 de Novembro, tem uma das tradições mais simpáticas deste país, pois não conheço lugar algum, onde o convívio seja tão animado. Esta tradição assenta no seguinte:

O GAITEIRO

O gaiteiro, é uma pessoa que toca gaita-de-foles. Então, na manhã do dia 11 de Novembro, está à entrada da aldeia, um grupo de homens que aguarda a sua chegada e a anuncia com fogo de artificio, afim de transmitir à restante população.

Após a recepção e familiarizado o gaiteiro, vão-lhe ser ensinadas as cantigas da aldeia. Caso o gaiteiro já cá estivesse em anos anteriores, pois esta lição nada mais é do que uma recapitulação, onde numa simples volta a recordará. Mas o pior, é quando o gaiteiro é novo, que nunca ouviu as músicas da terra. Este mais esforço e empenho requer para aprender. Então os homens presentes, cantam as cantigas do S. Martinho para afinar e levar ao compasso desejado o artista.

O CORO

O coro, assim por mim designado, é um grupo de homens, expontâneo, não constituído anteriormente, normalmente homens de Maçores, que sabem, as musicas da festa e que ao som da gaita de foles, entoam os hinos locais, em vozes graves, em compasso lento, arrastado e em muitas vezes, descoordenado.

O coro, acompanha quase sempre o gaiteiro, sendo excepção a procissão, e a caldeira pelas ruas da freguesia. Neste coro, não existe um mínimo nem máximo de elementos, participando nele, todos quantos queiram acompanhar a caldeira e o gaiteiro.

A CALDEIRA

A caldeira é um recipiente metálico, de forma cilíndrica estanque e construído de material zincado. Tem uma asa ou alça metálica, fixa e arredondada. É usada frequentemente, nos meios rurais com o objectivo de cozer os alimentos (nabiças, nabos, batatas,) para o gado muar e asinino.

Em Maçores, a caldeira vai ser um objecto fundamental nas festas de S. Martinho, porque nela é que irá ser depositado esse liquido que neste dia se prova, como diz o velho ditado: " No dia de S. Martinho, vai à adega e prova o vinho."

O ENCHER E O BEBER DA CALDEIRA

Como já se referiu, a caldeira vai ser o contentor do vinho. Então, dois homens, com a ajuda de um pau ou vara, segurando cada um nas extremidades, vão colocar a vara de madeira, pelo interior da alça e transporta-la pelas artérias da aldeia, enquanto que seguem á sua rectaguarda, o coro de homens e o gaiteiro.

Pronta então esta formação, dá-se início ao enchimento da caldeira. Assim, este grupo, desloca-se pela aldeia fora, com a finalidade de encher a caldeira nas adegas dos produtores de vinho locais, que pouco a pouco, a vão atestando. Sempre nestas deslocações, a caldeira é acompanhada pelo coro e pelo gaiteiro.

Engraçada é, a forma de como se deve beber, segundo a tradição, pela caldeira. Então, a caldeira é colocada no solo. O que nela for beber, terá de colocar os joelhos no chão e inclinar-se sobre ela, introduzindo no interior do aro superior a cabeça e no cimo do vinho os lábios e pelo método da sucção, aspira o liquido. Desta forma, e como se diz por cá, "beba, que não beba, mergulhar, vai ter que mergulhar".Quer isto dizer, que pelo menos, tem que por os lábios no vinho.

O MAGUSTO

O magusto realiza-se depois da eucaristia e da procissão. As pessoas que querem participar reunem-se, normalmente no Lugar da Eiras, por ser um espaço tranquilo, óptimo para este tipo de convívio. Então são trazidas as castanhas e a palha que servirá para as assar. Esta última é espalhada no chão e as castanhas espalhadas sobre a palha. Incendeia-se e começa-se o assar das castanhas.

Logo que as primeiras castanhas estejam assadas, os participantes, aproximam-se do extinta fogueira e retiram-nas, consumindo-as em livre associação e feliz convívio entre todos até que se acabem as castanhas, fazendo, portanto, mais fogueiras. Durante o magusto, está presente a caldeira e o gaiteiro. A caldeira, desta vez, está colocada no chão, disponível para qualquer pessoa que queira beber. O gaiteiro, toca as musicas que conhece, tendo que, mais frequentemente, tocar as musicas do S. Martinho, acompanhadas pelos homens que formam o coro.

Assim que haja cinzas resultantes da queima da palha, as pessoas, sujam propositadamente as mãos, de modo a ficarem negras, para depois, as irem a esfregar nas caras das pessoas que estão presentes. Ora, com isto, levamos a um convívio, onde todas as pessoas estão de igual, com as caras sujas do carvão, levando-as a designar por já terem a cara "enfarruscada" ou "enfurretada".

Por fim e para aquelas pessoas que não puderam estar presentes no magusto, assam-se castanhas, que depois são introduzidas em sacos e os homens transportam-nos ao ombro, pelas ruas de Maçores e que vão distribuindo e dividindo pelas pessoas que se abeirarem. Recordo, mesmo nesta distribuição, a caldeira e o gaiteiro estão presentes, podendo desta maneira, as pessoas que não fossem ao magusto, ver a caldeira e ouvir as nossas melodias ao som da gaita-de-foles e do coro masculino.

  • Ver mais em: www.macores.pt.vu
  • Nota: Brevemente postaremos alguns trechos do cancioneiro de Maçores.

Portanto não se esqueçam: as festas de S. Martinho de Maçores são já para a semana!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ultreia! Caminho sem Bermas



Será lançado no dia 19 de Novembro de 2010, pelas 21h00, na Biblioteca Municipal de Valongo.
Estão todos convidados.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Quadros da transmontaneidade (24)

As minas do Lagar Velho

As minas do Lagar Velho, para mim, que já não as vi em laboração, que já não vivi a febre do volfrâmio, eram um local de brincadeira e de conhecimento interior. Ir às minas era poder espraiar o olhar pelo anfiteatro dos montes e correr, desalmadamente, sem medo de tropeçar nos lisinhos terraços fronteiros. Ir às minas era ter a coragem de entrar nas catacumbas dos meus medos. Entrar nas minas era como descer em mim e, na minha escuridão, enfrentar as almas penadas que só a luz do dia consegue destruir. Entrar na escuridão das minas era penetrar no meu inconsciente, avançar de olhos arregalados, tacteante, ir ao encontro da fímbria de luz que rebrilhava lá ao fundo na fenda húmida da rocha e, depois de empunhada como espada flamejante, destruir todos as incriadas figuras que desejava ardentemente dominar.

ANTÓNIO SÁ GUÉ

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

VII Partidela Tradicional da Amêndoa

VII Partidela da Amêndoa

(clique na imagem para aceder à reportagem fotográfica)

Como oportunamente aqui anunciámos, realizou-se no passado sábado a VII Partidela Tradicional da Amêndoa no Auditório do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, onde se registou a participação de mais de 80 pessoas, maioritariamente do concelho de Torre de Moncorvo. Como é habitual, a Tuna Popular Lousense abrilhantou esta actividade com uma notável actuação. No final, foi servida uma merenda de produtos regionais, oferecidos pelo comércio local e alguns particulares.

Para aceder às fotos do evento, clique na imagem em cima, e assim poderá recordar os principais momentos ou, para quem não esteve presente, ver o que perdeu!

Um dos momentos da actuação da Tuna Popular Lousense

Fotos e Vídeo: Arquivo MF&RM

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Partidela Tradicional da Amêndoa e a Jeropiga Reguenga

Hoje recebi o convite do Museu de Moncorvo para participar na partidela da amêndoa no próximo dia 23 de Outubro. É com muita pena que digo que não posso estar presente. Mas a mensagem recebida fez-me pensar no Ti Reguengo e na quantidade de pessoas que se juntava no seu lar para, a seguir à ceia, dar cabo de algumas sacas de amêndoa. Era uma actividade colectiva e de entre-ajuda. Deixo-vos um pequeno extracto do conto “Regalo”, incluído em Outros Contos da Montanha, onde a “Partidela da Amêndoa” se fazia acompanhar do regalo oferecido pela faina da vindima e do trabalho subsequente do Ti Reguengo – a aguardente e a jeropiga.
Espero que adiram a esta actividade! Certamente, a única oportunidade para reviver esta quadra.

“- Ainda não te chega?! Anda comigo, deixa lá o alambique!
Numa voz um quanto rouca do sol e do álcool e de bochechas rosadas, afagou prontamente as mãos da companheira e canelha acima parecia um Baco rejuvenescido. No dia seguinte estaria ali à mesma hora! Com o seu labor, mas sobretudo com a sua experiente paciência e sabedoria, continuaria a empreitada de tratar da essência que aqueceria os gélidos e longos serões de Inverno daqueles que, mas eternas horas da partição da amêndoa, precisavam de reanimar a imobilidade de quase todo o corpo, ritmando assim os movimentos do martelo com a fluidez do sangue aquecido pela aguardente ou jeropiga. Aliás, esta última, que todos conheciam pelo nome de Jeropiga Reguenga, era muito famosa e, afinal, um verdadeiro chamariz para os melhores partidores. Parece que o segredo residia não apenas na qualidade da aguardente que se misturava ao vinho e ao açúcar, mas também nas respectivas proporções. Pela animação dos serões e, principalmente, quando chegava a hora de cada qual ir para o aconchego dos cobertores, depressa se percebia que a misteriosa mistura tinha na sua composição avantajada percentagem de branquinha.”

Isabel Mateus

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

VII Partidela Tradicional da Amêndoa, recriada no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo

(clicar sobre o cartaz para ampliar)


Conforme anunciado no cartaz, realiza-se no próximo sábado, dia 23, pelas 15;30h, a VIIª Partidela Tradicional da Amêndoa.
Esta actividade realizava-se por esta altura do ano e decorria até ao Natal (e às vezes mais, no caso de maiores produtores), sendo realizada ao serão, normalmente em sistema de entre-ajuda (só os grandes proprietários pagavam jeiras às partideiras). Era um momento de convívio entre jovens pessoas de todas as idades e uma oportunidade para os rapazes se aproximarem das raparigas que "tinham debaixo de olho", já que as ocasiões de namoro, especialmente à noite, não eram muitas. Outros tempos!
Com o decréscimo da produção da amêndoa e a maquinização desta actividade, desde há cerca de 30 anos que esta tradição, característica da chamada "Terra Quente Trasmontana" (zona mais próxima do Douro Superior) entrou em decadência, para a qual também concorreu a televisão com as suas telenovelas. Os serões deixaram de ser momentos de amena cavaqueira, ao pé do lume, a escachar amêndoa, e passaram a orientar-se para o caixote das imagens, com menos conversa e menos actividade produtiva...
Se quiser saber como era, participe! É no próximo Sábado no auditório do Museu, estando prevista uma actuação da Tuna Popular Lousense e uma merenda no final, como era da praxe.

Esta actividade é organizada pelo município de Torre de Moncorvo e pelo PARM, contando com diversos patrocinadores, institucionais e comércio local, além dos Lares e Centros de dia do concelho.

Ver mais: http://www.torredemoncorvo.pt/vii-partidela-tradicional-de-am-ndoa e http://parm-moncorvo.blogspot.com/2010/10/vii-partidela-tradicional-da-amendoa.html

terça-feira, 19 de outubro de 2010

República comemorada com livros, revista e uma exposição de jornais da época

No passado fim-de-semana e no âmbito das comemorações da implantação da República em Torre de Moncorvo promovidas pelo município, decorreu no auditório da biblioteca municipal o lançamento de dois livros e de uma revista, além de uma exposição de primeiras páginas de diversos periódicos que se publicaram na região entre 1910 e 1926.
Aqui fica a reportagem:

Dia 16.10.2010, 15;00h - O Presidente da Câmara, Engº. Aires Ferreira, abrindo a sessão de apresentação do livro "História política de Torre de Moncorvo, 1890-1926", de autoria de António Júlio Andrade (2º. a contar da direita), o qual seria apresentado pelo jornalista Rogério Rodrigues (segundo a contar da esquerda). O livro versa sobre os últimos anos da monarquia e todo o período da chamada Primeira República, no nosso concelho.

Momento de apresentação do novo número da revista da Associação dos Antigos Alunos e Amigos do ex-colégio Campos Monteiro, por Rogério Rodrigues, que foi o coordenador editorial da mesma. Esta revista é presentemente dirigida pela Drª. Júlia de Barros G. Ribeiro (1ª. a contar da direita), sendo o actual presidente da direcção da associação o Engº. Ramiro Salgado (2º. a contar da direita). A revista possui artigos de diversos autores, focando diversas realidades e personagens do concelho e da região, embora com um tema de fundo: "Ensino e República".
A revista, tal como o livro anteriormente referido, tiveram a chancela da editora Âncora, representada pelo Dr. António Baptista Lopes (1º. à esquerda).
Dia 17.10.2010 (domingo), 15;00h - O Sr. Presidente da Câmara abrindo a sessão de apresentação do livro de Adília Fernandes "História da Primeira República em Torre de Moncorvo, 1910-1926". A apresentação do livro coube ao Prof. Doutor Norberto Cunha (na foto acima, 2º. a contar da direita) que, numa extensa prelecção, fez uma caracterização da sociedade portuguesa na transição do séc. XIX para XX, bem como dos movimentos sociais e ideológicos, além de graves crises económicas, que vão estar em correlação com os acontecimentos que decorreram entre a queda da monarquia e o advento do Estado Novo, com o golpe do 28 de Maio. No que toca a este livro, a autora (na foto, a 2ª. a contar da esquerda), partindo das chamadas "fontes primárias" (livros de actas), procurou enquadrar os factos locais na História nacional do período considerado. O livro foi editado pela Palimage, com apoio do município, que também apoiou as publicações anteriormente mencionadas.

Paralelamente à apresentação de livros e revista referidos, esteve patente uma mostra de primeiras páginas de jornais da época.
É de destacar o numeroso público que esteve presente nestes eventos.
Fotos: cedidas por Biblioteca Municipal, a quem agradecemos.
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sábado, 16 de outubro de 2010

Isabel Mateus cria "web page"

A nossa ilustre colaboradora, conterrânea e Amiga Isabel Mateus acaba de criar uma "web page" com opção de leitura em português e inglês. Num "site" de consulta muito fácil, a escritora e professora da Universidade de Liverpool (Reino Unido), disponibiliza alguma informação sobre si e a sua obra. Aqui fica o respectivo link: http://www.isabelmateus.com/

Isabel Maria Fidalgo Mateus nasceu nas Quintas do Corisco, um pequeno povoado de atrás-da-serra (do Roboredo), na freguesia de Felgueiras, concelho de Torre de Moncorvo. Estudou na Escola Secundária de Torre de Moncorvo e veio a licenciar-se m Português-Francês na Universidade de Évora. Mais tarde enfunou as velas e partiu, não para as índias distantes, mas para uma Europa não menos distante. Matriculou-se na Universidade de Birmingham (Reino Unido) onde fez o doutoramento (grau de PhD) e aí leccionou lingua e literatura portuguesa. Mais tarde passou para a Universidade de Liverpool, onde permanece como Professora de Língua e Literatura Portuguesa.
É especialista na obra de Miguel Torga, sobre quem fez a tese de doutoramento, de que resltou a obra "A viagem de Miguel Torga". De acusado registo torguiano é também a sua colectânea de contos precisamente intitulada "Outros contos da Montanha". Mais recentemente publicou outro livro de contos, como aqui noticiámos, sob o título "O Trigo dos Pardais", tendo como fundo paisagístico e humano as suas terras de origens, as terras de Moncorvo.
Nos seus períodos de férias responde sempre ao chamamento das raízes e aqui passa os seus dias felizes com a família, participando em actividades locais. Além disso é uma colaboradora assídua deste nosso blogue, o que muito nos honra.
Felicidades, Isabel!

N.Campos

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"Alma de Ferro" actua amanhã nos Estevais da Vilariça

Amanhã, dia 16 de Outubro, pelas 16;00h, nos Estevais da Vilariça, o grupo de teatro de Torre de Moncorvo "Alma de Ferro", vai levar à cena a peça "Falar verdade a mentir", a qual já foi representada por este grupo em vários locais, sempre com muito sucesso.
A última apresentação ocorreu no Louriçal (concelho de Pombal), onde foram largamente ovacionados.
A peça "Falar verdade a mentir" é de autoria de Almeida Garrett (um clássico da literatura portuguesa) e foi escrita em 1845, sendo publicada em 1846 juntamente com "Filipa de Vilhena" e "Tio Simplício". A acção passa-se na Lisboa do séc. XIX e procura fazer uma crítica jocosa e cómica à sociedade da época. Uma comédia a não perder!

Esta iniciativa insere-se no programa das comemorações da Semana Europeia da Democracia Local, de iniciativa da Junta de Freguesia de Adeganha - o qual foi iniciado no passado fim de semana com uma palestra e pequena mostra sobre o património desta freguesia, em que os Estevais se inserem.
Ainda no âmbito destas comemorações, realizam-se no dia 17 de Outubro (domingo), na povoação de Nozelos, pelas 10;00h um jogo de futebol de 5, entre Nozelos e Junqueira, culminando às 15;00h num torneio de Fito e Raiola (jogos tradicionais).

Relembramos que a freguesia de Adeganha possui 5 povoações: Nozelos (a aldeia mais a Norte do concelho de Torre de Moncorvo), Junqueira, Adeganha (sede da freguesia), Estevais e Póvoa.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Quadros da transmontaneidade (23)

O monte da cigadonha

Na cigadonha só existem pinhos e penedos. Quando se atravessa a ribeira eleva-se o olhar e, aos nossos olhos, apenas surgem pedregulhos plantados de propósito pela encosta acima. Entra-se no caminho estreito, emparedado, pisam-se as primeiras pedras, já gastas, e os calhaus parecem ganhar vida. À medida que se vai subindo, não sei se por artes do demónio, o raio das pedras parecem evocar outras eras, as eras dos mouros e dos romanos, que por ali pelejaram. Continuamos a subir, surgem os últimos vestígios daquilo que terá sido uma parede do castelo. O coração acelera.
O lugar está encantado. Algum feitiço os mouros por lá deixaram, de certeza. Aquela gente conhecia as profundezas da alma. Se assim não fosse, se o local não estivesse encantado, não interferiria com a psique de ninguém. Não acham? Subia-se e descia-se normalmente e se o coração acelerasse era apenas pelo esforço despendido, nunca por outras “artes” desconhecidas da razão: aquilo não passa de um monte áspero, repleto de “mecras” gigantes.
O caminho continua a subir, contorna a encosta e entra no cume do monte pelo lado oposto ao da ribeira. O raio das pedras continuam a impressionar e a alterar-nos o juízo. Ah… Já sei! O bezerro de oiro ainda por lá anda, de certeza, ninguém o descobriu. Qual gruta! Qual Calipso! A mitologia grega não chega para explicar tamanha aceleração do coração. Aquele é o monte da Cigadonha, o monte onde a moura encantada aparece com os primeiros raios da aurora, e que, no seu encantamento, envolta em perfumes de primavera, abre uma fenda na rocha, e para aqueles que acreditam, só para esses, os conduz à presença do bezerro de ouro maciço.

ANTÓNIO SÁ GUÉ

sábado, 9 de outubro de 2010

Centenário da República comemorado na Escola Secundária de Moncorvo

Rogério Rodrigues (3º a contar da direita) proferindo a sua palestra

O agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo assinalou o centenário da República com um conjunto de actividades, de que destacamos a palestra, realizada ontem à tarde, pelo jornalista e escritor moncorvense Rogério Rodrigues.
A palestra, intitulada "A implantação da República em Portugal", teve lugar no polivalente da escola-sede do Agrupamento de Escolas, perante uma numerosa plateia de professores, alunos, funcionários e outros cidadãos que quiseram assistir. A apresentação do ilustre conferencista coube ao Director da Escola, Dr. Alberto Areosa, que explanou os objectivos destas comemorações e agradeceu ao grupo de História, na pessoa da professora Lucília e do professor Pimenta de Castro a oportunidade desta organização.
A seguir, Rogério Rodrigues dissertou sobre as causas que estiveram na génese da República, as intensas movimentações políticas do período que antecedeu a queda do antigo regime, precedido pelo regicídio (morte do rei D. Carlos) e toda a série de acontecimentos quer da Revolução (acções dos militares, com destaque para Machado dos Santos, das organizações secretas como a Carbonária e a Maçonaria, a que se juntaram depois as massas populares), quer do período político que se lhe seguiu até ao golpe de 28 de Maio de 1926, que levaria ao chamado período do Estado Novo. Passou em revista episódios como o "golpe das Espadas" que levou à ditadura do general Pimenta de Castro (parente do Dr. António Pimenta de Castro, professor na Escola Secundária de Moncorvo) e o da célebre "camioneta fantasma" que numa noite tratou de matar a maioria dos principais vultos do 5 de Outubro de 1910. Neste episódio lamentável, num tempo em que as divergências políticas se resolviam a tiro, participou um moncorvense da Cardanha, um certo Olímpio, conhecido como o "Dente de Ouro".

Aspecto da sessão, com numerosa assistência de professores e alunos

No final da palestra, o professor Pimenta de Castro prestou vários esclarecimentos sobre a simbologia das bandeiras, quer da Monarquia (a azul e branca), quer da Republicana, que se mantém hoje como a bandeira nacional. É de salientar que nem todos os republicanos estavam de acordo com as actuais cores da bandeira, como era o caso do poeta Guerra Junqueiro, natural do vizinho concelho de Freixo de Espada à Cinta, que defendia a manutenção das cores azul e branca, retirando apenas a coroa real e se colocasse no seu lugar a esfera armilar, com 5 estrelinhas verdes e vermelhas, a evocar o 5 de Outubro. A esfera armilar viria a ficar em fundo, como se sabe, mas as cores acabaram por ficar a verde e vermelha, como símbolos da Esperança e do Sangue dos heróis, se bem que essas eram as cores de uma das lojas da Carbonária, associada inclusive ao Iberismo.

No final da sessão, todos cantaram o hino nacional, uma marcha composta por Alfredo Keil, em 1890, em reacção ao Ultimato inglês sobre as nossas colónias africanas, e que, à semelhança da Marselhesa (hino francês) se intitulava "A Portuguesa", sendo logo adoptado pelos republicanos como o seu hino militante.

Txt. e fotos de N.Campos

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quadros da transmontaneidade (22)

As Duas Faces da Moeda

(...)

Outras vezes surgia-lhe como num sonho o muredo de pedra solta das casas da aldeia, riscadas de ocre pelo barro das junturas, da sua rua apertada e inclinada. Vinham-lhe à lembrança os balcões graníticos com escadas de lajes concavadas e buídas pelo tempo, adornadas de vasos de craveiros e nardos. Vinha-lhe à memória a cavaqueira no adro da Igreja depois da missa dominical, encostados ao gradil de ferro forjado, paralelinérveo, sobranceiro ao tanque que, orgulhosamente, ostentava a esfera armilar manuelina como brasão

(...)

Uma obra da Primeira República em Carviçais (1912)

E ainda a propósito de República e de inaugurações, aqui fica uma obra, notável para a época, na aldeia de Carviçais: o chafariz das traseiras da igreja, encimado por um belo gradeamento em ferro forjado. É possível que a guarita que faz de urinol (mesmo no limite do lado esquerdo da fotografia) corresponda também à mesma empreitada, o que revela uma preocupação sanitária e de incentivo ao civismo, pois o que era normal, nesses tempos, era urinar à esquina da canelha.
Também nos tempos em que não havia água canalizada, o chafariz na praça era um grande feito de natureza social.
É de supor que a obra fosse já uma decisão da junta saída do novo regime, sendo concluída em 1912, como atesta a inscrição da "Junta de Paroqia [sic] de Carviçaes", empenhada em marcar a diferença. O belo escudo da "Republica Portugueza", em ferro fundido deve ter sido encomendado às fundições que havia na cidade do Porto ou arredores, mas é de crer que o trabalho de ferro fundido seja obra de ferreiros locais.
Txt. e fotos: Nelson Campos

5 de Outubro - inauguração do Largo da República

Alguns momentos da inauguração do novo Largo da República, entre o cemitério municipal, Rua de Santiago e o Bairro do Santo Cristo:

Discurso do Sr. Presidente da Câmara, ladeado pelos vereadores António Moreira, Alexandra Sá e José Aires.

Vista geral do novo espaço, em fase de conclusão - falta a arborização e ajardinamento (estando prevista uma capela no extremo do lado Nascente)



Uma placa toponímica ficou a assinalar a nova designação.

Fotos: 1ª e 2ª foram gentilmente cedidas pela divisão de Cultura e Turismo do Município, a quem agradecemos; as restantes são do Arquivo de Reportagens deste Blogue.