quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Maçonaria e República em Trás-os-Montes e Alto Douro, por Rogério Rodrigues - I

No passado dia 13 de Novembro, no auditório do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, Rogério Rodrigues proferiu uma brilhante palestra sobre a influência da maçonaria na propagação dos ideais republicanos por terras trasmontanas e alto-durienses (ver post de 15.11.2010, neste blogue).
Por se tratar de tema que interessou muitos dos presentes, ficando também ao alcance dos ausentes, com a devida vénia do autor, a quem desde já agradecemos, aqui vamos editar o texto da referida conferência. Dada a sua extensão, será publicado em vários post's:

«Subsídios para a história da Maçonaria e dos ideais republicanos em Trás-os-Montes e Alto Douro

Por: Rogério Rodrigues

.

Não se pode compreender a implantação da República sem a acção da Maçonaria e da Carbonária.

Se até 1910 a Maçonaria e a Carbonária eram essencialmente urbanas, com destaque para Lisboa, Porto, Coimbra e Leiria, já após a implantação da República, tiveram particular importância na província, nomeadamente em Trás-os-Montes e Alto Douro, com grande incidência em Chaves, com relevo para Adelino a Samardã e António Granjo.

Não sou investigador nem historiador. Apenas um leitor compulsivo, porventura um cultor do conhecimento que, passando os dois últimos anos a estudar a República, se sentiu na obrigação e na necessidade de estudar a Maçonaria.

À excepção do registo dos maçons de Moncorvo, cuja lista um amigo meu e historiador me forneceu, todas as outras informações, quer de nomes, triângulos ou lojas foram pesquisados em livros. Para quem esteja interessado, sugiro os quatro volumes dos Primórdios da Maçonaria em Portugal de Silva Dias ( um investigador não maçon), a História da Maçonaria de Borges Grainha, a Maçonaria no Estado Novo de Oliveira Marques, o Dicionário da Maçonaria em 2 volumes também de Oliveira Marques, o posfácio de Raul Rego sobre a Maçonaria em Portugal na obra Franco-Maçonaria de Paul Naudon, a Luta do Poder contra a Maçonaria de António Loja, a Maçonaria e a Implantação República da, da Fundação Mário Soares e Grande Oriente Lusitano, etc., etc. Ainda as biografias de Bernardino Machado e de Afonso Costa ambas de Oliveira Marques, as Memórias Políticas de José Relvas, em 2 vols, publicadas em 1977, Correspondência Política e Literária com João Chagas em 3 volumes, Comunicação dirigida à Maçonaria Portuguesa de Trindade Coelho, o Relatório do comandante Simões Coimbra sobre o regresso da Maçonaria à legalidade após o 25 de Abril e ainda os Roteiros Republicanos, recentemente editados pela QuidNovi, referentes a Vila Real, de Joaquim Ribeiro Aires, e a Bragança, de João Manuel Neto Jacob & Vítor Alves.

Mas também em obras fundamentais sobre a República se podem encontrar múltiplas referências à acção da Maçonaria e da Carbonária. Cito, sem pretender ser exaustivo, a História da República de Carlos Ferrão, uma edição de O Século no cinquentenário da República, os cinco volumes da História da República de Raul Rego que vão ser reeditados no próximo ano, a História da República, coordenada por Fernando Rosas e Fernanda Rollo, o livro de Romero Magalhães, Vem Aí a República, o Cinco de Outubro de Jacinto Baptista, O Cinco de Outubro por quem o viveu, relatos, livros e depoimentos da época, na coordenação de António Ventura, recentemente publicado.

A Maçonaria foi sempre diabolizada pela Igreja que não aceitava o seu ecumenismo. Ou seja, não admitia que todas as religiões e raças e credos pudessem caber na mesma loja, o que retirava a hegemonia para a religião católica. E primeira encíclica condenatória foi a In Eminenti, publicada em 1738 pelo Papa Clemente XII. Denunciava “ algumas sociedades, ajuntamentos, congregações, agregações e conventículos, chamados vulgarmente de pedreiros livres ou franco-maçons” nos quais se reuniam, homens de várias religiões.

E no entanto prelados e padres foram grandes maçons como o cardeal Saraiva, o bispo Alves Martins de Viseu de quem Camilo Castelo Branco escreveu uma biografia, o camerlengo de Santa Sé, Costa Nunes, o abade de Medrões de Bragança, o bispo Feijó de Freixo de Espada à Cinta.

Muito do que sabemos dos rituais da Maçonaria e dos seus pretensos segredos foram registados para a posteridade pelas torturas da Inquisição sobre maçons, estrangeiros e portugueses.

Para além da Igreja todas as ditaduras perseguiram a Maçonaria., o comunismo proibiu a Maçonaria nos Terceiro (Junho de 21) e no Quarto (Nov/Dez 22) Congressos da Internacional Comunista (Komintern) sobretudo por influência de Trotsky e Zinoviev. Os bolcheviques que fossem maçons tinham que abjurar e perder os seus direitos políticos durante cinco anos.

Ser maçon no nazismo significava o campo de concentração. Aliás, fora divulgada no princípio do século uma edição dos Protocolos dos Sábios de Sião, documento apócrifo, trazido da Rússia por uma baronesa. Uma publicação falsa de protocolos que nunca tinham existido. No fundo, denunciavam e inventavam uma estratégia pela qual os judeus e a maçonaria iriam dominar o mundo. Em 1976 a extrema-direita portuguesa publicou este vómito.

Ser maçon no franquismo significava a morte. Foi assim que o avô do actual primeiro ministro espanhol Zapatero foi fuzilado por ser maçon.

No caso português foram muitas as defecções, mesmo no campo republicano. Disso falarei adiante. Registe-se que dois dos grandes amigos de Salazar eram maçons: Albino dos Reis e Bissaya Barreto, filantropo reconhecido, fundador do Portugal dos Pequeninos e o expoente da solidariedade, sobretudo no campo da Medicina. Manteve-se maçon até ao fim da vida e nas visitas de Salazar a Coimbra chegou a fazer-se acompanhar por Fernando Valle (médico João Semana e o primeiro governador civil de Coimbra depois do 25 de Abril), um dos maçons mais antigos do Mundo, que morreu em 2004 com 104 anos e fora iniciado em Coimbra em 1923.

CONTINUA

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"FORUM ARTES E LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES"

Enviada pelo nosso colaborador e amigo António Sá Gué, aqui fica esta boa notícia cultural:

Recentemente criado como novo espaço de divulgação de Artes e Letras em Trás-Os-Montes, este está já ao dispor dos interessados a partir de hoje.

Esperando poder ir ao encontro de autores e intervenientes culturais, o FORUM ARTES & LETRAS, estará disponível On-Line sob a forma de Blogue, a fim de poderem ser publicados textos, comentários, fotos, reportagens, videos ou notícias, numa abordagem cada vez mais actual e actuante, no panorama cultural da região.

A fim de ser o mais abrangente quanto possível, solicitamos aos interessados o envio o material disponível para o email antonius.affonsus@gmail.com a fim de o mesmo ser editado on-line.

Inicialmente baseado nas notícias veiculadas pelo site do Grémio Literário Vilarealense, aqui deixamos a esperança de dar eco também, a outras fontes de informação.

Ao Dr. Pires Cabral, incansável obreiro ao serviço da Cultura e da Região, aqui deixamos a devida vénia, pelas publicações inseridas no site do Grémio Literário Vilarealense, as quais nos serviram de fonte inicial.

Esperando que este espaço seja do agrado de todos, enviamos as melhores saudações,

FORUM ARTES E LETRAS DE TRÁS-OS-MONTES

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

“A Magia das três Rainhas Magas” – uma proposta de Natal do grupo de teatro “Alma de Ferro”

No próximo dia 8 de Dezembro (quarta-feira), pelas 15;00 horas, no teatro do Celeiro, em Torre de Moncorvo, o grupo ALMA DE FERRO/Associação Cultural de Torre de Moncorvo estreia a peça “A magia das três rainhas magas”.
Esta peça é uma adaptação feita pelo Grupo Alma de Ferro do livro “NATAL! NATAL!” de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Embora baseada num conto para crianças, esta dramatização procura alcançar um público de todas as idades, incorporando quadras natalícias recolhidas na região de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Como habitualmente, do elenco fazem parte Esperança Moreno, Camané Ricardo, Luís Pires, Marilú Brito, Mizé Camelo e Paulo Medeiros. A encenação é de responsabilidade de Américo Monteiro e Manuela Costa, e a parte técnica de Beto Mesquita e Nando Barreto.
No dia 18 de Dezembro, Sábado, a peça será de novo levada à cena na Fundação Francisco António Meireles e no dia 19, Domingo, na sede da Junta de Freguesia do Castedo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quadros da transmontaneidade (26)


O frio
Cá estou eu no frio. As memórias nunca se derretem, é o que me apetece concluir quando sinto este frio que me entorpece o corpo, mas, simultaneamente, me aquece este meu “eu” cheio de incoerências, que já nem tento perceber. Caminho sobre a erva esbranquiçada que geme debaixo das botas de atanado. Definitivamente: há coisas que nos enformam sem nós darmos conta. Alegra-me aquele ranger de milénios e, estranhamente, fere-me aquele gemido de revolta pelas fortes pisadelas: desvio-me. Na lama congelada vejo as marcas do rodado de um carro.Sigo-as com o olhar, até desaparecerem.
Depois, depois olho em redor à procura de outras memórias. Os vales e os montes são os mesmos, confesso existir, simplesmente, diferença no tamanho. O nevoeiro, o nevoeiro de sempre continua a esconder-me os mistérios deste aconchego. As vergônteas das giestas, que pela pobreza do solo nunca foram folhas, nem mesmo o peso da geada as verga, continuam pacientes e ufanamente erguidas por ali terem nascido.

ANTÓNIO SÁ GUÉ

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pela casa (e por causa) de nossos avós

Foi necessário que esta bisarma viesse abaixo ao fim de mais de um século ali plantada, não por que competisse com a idade máxima de um ser humano na Terra - calcula-se, pelos dados disponíveis, que a superou bem - mas tão só por que começava a ameaçar a casa e mais alguma coisa não de somenos importância.
Ainda lá ficou outro gigante (eucaliptos são, da variedade que dá aroma) que talvez tenha os dias contados, por idêntica razão.
Que fazer? Como agir? Podemos sempre perguntar-nos, também aqui. Quem os mandou plantar e quem os plantou há muitos anos que não está por ali a encher os pulmões do ar a que, naquela época, era dada importância por assim dizer profiláctica.
Já segue um novo cujo tronco é, por estes meses, mais grosso que um pulso, não chegando ainda ao diâmetro de uma anca magra. Ficará este - e a rebentação de um dos outros - para memórias renováveis.
Torna-se talvez desnecessário referir que se veio a verificar que o cerne desta vetusta árvore já não estava são (para além da ideia, comummente aceite, que dá conta de um eucalipto tudo secar à sua volta, o que, neste caso, não parece ser verdade, já que fica ainda ao alto outro velhíssimo e o tal rebento a que acima se alude).
Haverá, assim, lenha já garantida (entretanto cortada e empilhada) para o inverno de 2011-2012, na margem direita do rio Douro, a umas dezenas de quilómetros da sua criação e a escassos metros das suas águas - sim, que as águas mesclam-se, são de todos e de ninguém, proliferam também, como nós, fora de leitos sinalizados como tal, são fundamentalmente subterrâneas, as que ficam mais tempo.
Esta árvore viu muita gente passar. Dá pena.
E a gente que passou?
Está bem assim?

Outono de 2010

Carlos Sambade

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Livro de "De Cabinda ao Namibe" é apresentado hoje no Porto

É aprsentado hoje, dia 26 de Nobembro, na Biblioteca Almeida Garrett (junto ao palácio de Cristal), no Porto, pelas 21 horas, este excelente livro de Adriano Vasco Rodrigues.
O Professor Adriano Vasco Rodrigues, embora sendo natural de Longroiva (concelho da Meda), casou no Felgar com a Doutora Maria da Assunção Carqueja, sendo um emérito historiador, arqueólogo e pedagogo, com vasto currículo em Portugal e no estrangeiro, tendo dirigido, há anos, uma Escola Superior em Möll, na Bélgica.
O presente livro conta uma série da passagens da vida do autor por terras africanas, mais especificamente em Angola, na 2ª. metade dos anos 60, onde exerceu actividade como inspector escolar e, entretanto, como arqueólogo e antropólogo. O estudo dos túmulos indígenas da Kibala, ou a escavação de um barco do século XVIII no deserto do Namibe, além de muitos outros aspectos relativos à história angolana, são motivos de especial interesse que tornam muito atractivo este livro quase de aventuras.
A não perder!

domingo, 21 de novembro de 2010

Quadros da Emigração – O vaivém continua ... e por quanto tempo?

Estação de camionagem de Grenoble, França, 16 Novembro 2010


Ei-los que regressam mais uma vez! São os mesmos que partirem à procura do pão e que, agora, andam à procura da (última) Pátria.


O convívio inicial da chegada ao local transpôs-se rapidamente para as filas dos assentos do Expresso de luxo. Assim que se sentaram lado a lado, a senhora idosa continuou a conversa com a amiga. A outra replicou-lhe, apropriando-se das suas palavras. Também ia e vinha uma a duas vezes por ano e às temporadas. A cadeira vazia do lado da janela comportava as duas bolsas e os casacos finos de malha a que o ar condicionado da hora de arrancar haveria de dar préstimo para se agasalharem. Subitamente e em consonância, as duas cabeças, praticamente unidas, viraram-se entusiasmadas para a sua direita. O casal vizinho, acomodado na fileira oposta, viajava para uma aldeia não muito distante da delas. Depressa se incendiaram em indagações que acompanhavam perfeitamente a velocidade do veículo a percorrer a estrada em direcção a Portugal. Faladora, a mulher adiantou-se:
“Já vendemos a casa que tínhamos comprado com a intenção de passarmos os nossos últimos dias perto do nosso filho. Até nem havia muito tempo que era nossa... Há coisa de dois a três anos... Mas agora que o filho, a nora e os netos se mudaram para Montpellier o que ficávamos a fazer sozinhos em Paris? Eu e o meu homem ainda andámos com a ideia comprar outra lá em baixo, no Sul. A cidade é bonita e tem um bom clima! Se não fosse pelo Mistral, durante os meses de Inverno, parecia mesmo o clima da nossa terra. Mas íamos voltar ao início?! Outras pessoas, cidade estranha, novos hábitos... Bem sabemos quanto nos custou travar conhecimento quando chegámos! Já não seria tão difícil, mas mesmo assim... Ainda temos a casa em Portugal, os bocados e família. Quando nos apetecer, voltamos em visita de turistas e eles que façam o mesmo! “
“Fizeram bem”, concordou a mesma senhora de idade. “Vê-se que ainda não são velhos e que têm saúde. Gozem mais uns anitos do nosso bom ar! Eu é que não posso dizer o mesmo. A osteoporose obriga-me a tratamentos, operações e já se sabe que em França sou melhor atendida e mais depressa. Além disso, também me fica mais barato. Vou andar neste va-vient France-Portugal enquanto puder.”
A companheira de fileira ia acenando com a cabeça para manifestar a aprovação das suas palavras. Também ela tinha escolhido a mesma modalidade. Entretanto, submergidos pelos pequenos problemas quotidianos que caracterizavam, no presente, a grande preocupação das suas vidas, não anteviram que se juntara outro compatriota à discussão. Idoso, moreno, olhos brilhantes, dançarinos e risonhos, alisava a tez da cara e passava as mãos pelos cabelos finos e brancos. Ia tratar das vinhas no Douro e dos prédios que comprara nos primeiros anos de França. Grande tolo! Moera ali dinheirinho que não recuperaria. Mas não era só isso que o preocupava. A saúde é que se sentia ameaçada todas as vezes que precisava de recorrer ao Centro de Saúde mais próximo da sua aldeia. Contudo, permanecia mais tempo a sulfatar os vinhedos ou a enxertar os bacelos dos socalcos do que em França fechado dentro de casa, ou sentado no banco do jardim a atirar farolos de pão às pombas para se distrair.
A conversa fluía ritmada e sem segredos. O tema desnudava-se aos poucos e, na consciência de cada passageiro, as angústias esbatiam-se e aligeiravam-se, devido à partilha da raiz do mesmo problema: emigração. Quando todos suspiravam de alívio e se acalmavam pelo cansaço de algumas horas de viagem já decorridas, uma voz sumida, vexada e consumida, por ter equacionado inúmeras vezes a questão na intimidade, assumiu de frente o cerne do dilema: “E o que faremos quando não tivermos força para este vaivém?”



sábado, 20 de novembro de 2010

Em memória do Ramiro Pessoa

«Considero a Vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada (...). Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência.» - Fernando Pessoa, aliás Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego", ed. 1982, p.220
Faleceu o Ramiro, depois de uma luta insana contra doença prolongada. Aguentou vários assaltos, mas o último combate foi-lhe fatal.
Relembro-o dos velhos tempos da Escola Secundária, nos finais dos 70, ainda no actual edifício do Lar da Misericórdia (antigo Hospital D. Amélia). Tempos animados esses de discussão política, actividades culturais e desportivas, renovação musical, tempos em que havia uma grande massa estudantil decorrente, em grande medida, do significativo acréscimo da população devido ao "regresso" do pessoal do antigo ultramar, entre os quais se encontrava o Ramiro, vindo de Moçambique. Por essa altura apareceu pela Escola Secundária de Moncorvo um jovem professor extrovertido e activista, o prof. Sequeira, que aglutinava a malta, dinamizando a escola, dentro e fora dela, desde a "Biblioteca" do ti Carró, a saraus no Cine-teatro, passando pelas actividades desportivas (basquetebol, andebol, futebol de salão) no gimno-desportivo. Foi uma geração de ouro da escola secundária e o Sequeira tornou-se um moncorvense adoptivo, que, como tal, tantos anos volvidos, ainda regularmente nos visita. Foi por ele que soube, via e-mail, da triste notícia, apesar de esperada.
O Ramiro foi dos que escolheu ficar por Moncorvo, onde trabalhou, primeiro no GAT, como topógrafo, instalando-se depois por conta própria, como técnico e agente imobiliário. Paralelamente manteve sempre a paixão pelas actividades desportivas, sendo árbitro de futebol de salão e observador credenciado pela APAF (Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol). Era um homem bom e com muitos amigos. Tinha 52 anos.
A toda a família enlutada, os nossos sentidos pêsames.
O funeral será amanhã (domingo), pelas 14;00horas.
.
Txt.: N.Campos; Foto: retirada do Facebook/página de Ramiro Carlos Pessoa

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quadros da transmontaneidade (25)

As sepulturas de S. Cristóvão

Já eu era espigadote e ainda me arrepiava quando passava no caminho que bordeja as sepulturas de S. Cristóvão, escavadas na rocha xistosa. Era sempre da mesma forma, eriçavam-se-me os cabelos e um arrepio percorria-me o corpo, exactamente como quando uma alma se depara, frente a frente, com um lobo, que também era animal da minha escuridão. Vinha-me à lembrança a lenda das formigas gigantes, que a Tia Maria Júlia me contava, tão grandes que comiam crianças e levaram ao abandono do povoado. Tocava com força a burra ruça e, sem olhar, ou então a olhar a crista do monte fronteiro, que sempre ajudava a espantar os pensamentos, estugava o passo para vencer a catatonia que parecia querer tomar conta de mim.
Depois, com o passar dos anos, os medos foram-se desvanecendo, os pensamentos de criança também, então, imaginava-as com os esqueletos dentro, e escavava com a ajuda de um pau que recolhia nas redondezas. Por vezes, fitava-as longamente, media-as com olhar para depressa concluir que eram muito pequenas para alguém poder ser sepultado nelas. Outras vezes, gostava de saltar de fraguinholo em fraguinholo sempre à cata de encontrar algo que ainda ninguém tivesse visto, à espera de descobrir alguma relíquia antiquíssima escondida nas paredes de pedra solta, que imaginava serem aquilo que resta das casas.
Hoje restam-me memórias, e anseio conhecer quem ali existiu.

ANTÓNIO SÁ GUÉ

Conferência de Rogério Rodrigues, encheu o auditório do Museu

Momento de abertura da sessão, pela representante do Município, Drª. Helena Pontes, Chefe de Divisão de Cultura e Turismo

A conferência de Rogério Rodrigues intitulada “Subsídios para a história da Maçonaria e dos ideais republicanos em Trás-os-Montes e Alto Douro”, realizada no passado sábado, dia 13 de Novembro, encheu por completo o auditório do Museu do Ferro.

Mais de meia centena de pessoas, algumas vindas de outros concelhos nordestinos, quiseram estar presentes, algumas mais esclarecidas, outras mais curiosas por saber algo mais sobre um tema ainda rodeado de uma certa aura de hermetismo.

Rogério Rodrigues começou por dizer que não se pode compreender a implantação da República sem se conhecer a acção da Maçonaria e da Carbonária. Para os mais interessados sobre o tema indicou alguma bibliografia, em que também se baseou para elaboração desta dissertação, além de uma lista (inédita) de nomes de maçons trasmontanos iniciados em finais do século XIX e inícios do séc. XX, entre os quais alguns moncorvenses, dados que lhe foram fornecidos por um historiador seu amigo.

O conferencista Rogério Rodrigues.
Referiu Rogério Rodrigues que, desde cedo, a Maçonaria foi diabolizada pelos poderes instituídos (nos tempos da Monarquia Absoluta e do chamado “Estado Novo”), sobretudo pela Igreja. Não obstante, mesmo esta instituição religiosa teve muitos sacerdotes e até alguns dignatários de mais relevo ligados à Maçonaria, de que deu vários exemplos, como o bispo Alves Feijó (bispo de Macau, Cabo Verde, Angra e Bragança), natural de Freixo de Espada à Cinta (nasceu em 1816 e faleceu em 1874). Mesmo no “Estado Novo”, dois grandes amigos de Salazar eram maçons: Albino dos Reis e o médico Bissaya Barreto.

Relativamente a Trás-os-Montes, e começando por Torre de Moncorvo, o autor referiu alguns moncorvenses que ainda no séc. XIX tinham aderido à Maçonaria, com destaque para Francisco Meireles, cujo nome está ligado à praça central da vila, por ter sido o benemérito que deixou a sua fortuna para a constituição de um Asilo para desvalidos nesta vila, hoje Lar Francisco António Meireles. Aliás, a benemerência associada à assistência social e à alfabetização foram sempre uma das preocupações dos bons maçons. Francisco Meireles foi um importante negociante e financeiro que tendo passado a sua vida fora da sua terra de origem (foi o fundador de uma “loja” maçónica em Aveiro), tendo enriquecido, acabou por legar em testamento avultada soma para a criação do referido "asilo" moncorvense.


A numerosa assistência, escutando atentamente.

Além de F. Meireles, são conhecidos os nomes de outros moncorvenses, como Cândido Dias, negociante no Porto, Joaquim Firmino Miguel, oficial da marinha mercante (iniciado em 1905), Luís Henrique de Almeida (professor) e Abel Gomes, iniciado em Moçambique em 1906, o qual, tendo regressado, viria a ser presidente de Câmara, no período da Primeira República, em Moncorvo. Abel Gomes foi quem inaugurou o Registo Civil nesta vila, ao registar um filho, logo após a República, quando as pessoas ainda estavam algo relutantes em relação a este tipo de registo, como dá testemunho o Abade Tavares, seu amigo, na monografia da Senhora da Teixeira. Rogério Rodrigues pensa que Abel Gomes terá sido um dos instaladores do Triângulo de Moncorvo, constituído em 1911, com o nº. 155, logo a seguir ao de Bragança e de Mirandela. Informou ainda que para se constituir um triângulo eram necessários três mestres. No entanto, os fundadores do triângulo de Moncorvo foram: José António dos Reis Júnior, um jovem advogado de 27 anos, Guilhermino Augusto Vaz, farmacêutico, Miguel Frederico Mesquita (com o nome simbólico de Ferrer), de 35 anos, lavrador. Surgem depois outros como António Alberto Carvalho e Castro, empregado dos Caminhos de Ferro em Miranda do Douro e Flaviano de Sousa, o empreiteiro que justou a construção do caminho de ferro de Pocinho a Torre de Moncorvo (linha do Sabor). O triângulo de Moncorvo teve uma vida curta, tendo sido declarado extinto desde finais de 1912, pelo decreto do GOL (Grande Oriente Lusitano) de 7.08.1913, visto que só um dos "obreiros" se mantinha activo, nessa data.

Momento de convívio, no final da sessão, nos jardins do Museu

Sobre outros famosos maçons de Trás-os-Montes, o conferencista mencionou: Alves da Veiga, natural de Izeda (Bragança), licenciado em direito, um dos fundadores do PRP (Partido Republicano Português), que esteve na intentona do 31 de Janeiro no Porto, pelo que acabou no exílio, tendo regressado com a República e vindo a desempenhar cargos de relevo depois de 1910; Emídio Garcia (fundador do liceu de Bragança); o já referido bispo Feijó (de Freixo de Espada à Cinta); Adelino Samardã, de Sabrosa, que esteve ligado à disseminação da Carbonária em Trás-os-Montes; António José Claro, de Chaves; Francisco António de Campos, barão de Foz Côa, riquíssimo proprietário, filólogo, que chegou a presidente da câmara de Lisboa e que foi Grão-mestre da Maçonaria lusitana; Antão de Carvalho, da Régua, um dos paladinos do Douro, que foi ministro da Agricultura na 1ª. República, que levou à criação da Casa do Douro, já no início do Estado Novo, entre muitos outros, terminando em Raúl Rego, de Macedo de Cavaleiros, o último Grão-mestre trasmontano.

Entre os focos mais activos, em termos de República e Maçonaria, destacou ainda as cidades de Vila Real e de Chaves, sendo daqui originário (e onde se terá iniciado) o Marechal Carmona, 1º. Presidente da República do Estado Novo, apesar de depois se ter distanciado.

A finalizar, Rogério Rodrigues disse que o fim da Monarquia começou, indirectamente, com um trasmontano, de Vinhais, o regicida Alfredo Buíça (que era carbonário), e acabou com outro trasmontano, que pouco nos ilustra, e que foi o Abel Olímpio “Dente de ouro”, natural dos Estevais da Vilariça (concelho de Torre de Moncorvo), e que foi o executor da famosa "Noite Sangrenta". - Nota nossa: Este episódio foi motivo de série televisiva há pouco transmitida pela RTP, com assinatura de Tiago Rodrigues, filho de Rogério Rodrigues.

.

Txt.: N.Campos

Fotos: R.Leonardo e H.Tavares

sábado, 13 de novembro de 2010

Maçores - festa de S. Martinho, hoje e amanhã

Bebendo da caldeira, de bruços, como mandava a tradição (foto de A.Basaloco)

Porque o dia de S. Martinho (11 de Novº.) foi quinta-feira, dia de trabalho para a maioria das pessoas, os dias principais da festa maçorana transitam para hoje e amanhã. Assim, é hoje que se realiza o magusto nas Eiras (à tarde) e a "procissão" do caldeiro do vinho do povo, fogo de artifício e animação musical (à noite) - ver Cartaz editado neste blog em 3.11.2010.
Para quem queira saber algo mais sobre Maçores recomendamos a leitura excelente monografia, de autoria da Doutora Ilda Fernandes, natural desta aldeia, intitulada: "Maçores, minha terra, minha gente" (edição da CMTM, 2003). Sobre esta festividade, diz a autora:

.

“A festa de S. Martinho realiza-se em 11 de Novembro e é uma festa imbuída de grande originalidade, onde o sacro e o profano se misturam e completam numa simbiose perfeita.

A festa inicia-se no dia anterior à tardinha com a chegada do gaiteiro, dantes vinha dos lados de Miranda que com os jovens que o esperavam davam volta ao povoado a tocar gaita de foles e cantar cantigas características desta festividade.

No seu dia durante a manhã predomina a vertente religiosa com celebração eucarística e procissão onde impera o andor com a imagem do nobre santo.

É o poço de Maçores a festejar o seu orago.

Durante a tarde faz-se uma espécie de arraial e arrematação na rua Nova.

Entretanto os jovens e mordomos fazem nas eiras comunitárias um mega-magusto. Após serem assadas e ensacadas as castanhas enche-se uma caldeira com vinho e percorrem o povoado a distribuir os bilhós e vinho que é bebido pela caldeira, como manda a tradição.”

Capa do livro da maçorana Ilda Fernandes
É ainda Ilda Fernandes que nos diz que "durante o dia festivo, grupos do sexo masculino acompanhados do gaiteiro e ultimamente também pelo acordeão dão inúmeras voltas ao povoado a cantar cantigas próprias desta festividade" com destaque para "Era o vinho" e "Manuel Duarte".
Aqui fica a letra destas cantigas, enviadas pelo nosso amigo Filipe Camelo:
.
Era o Vinho:

I

Era o vinho, meu Deus era o vinho

era a coisa que eu mais adorava

(bis)

Só por morte meu Deus só por morte

Só por morte o vinho deixava

(bis)

II

Ai eu hei-de morrer numa adega

Ai que o tonel seja o caixão

(bis)

O vinho seja a mortalha

Hei-de morrer com um copo na mão

(bis)

III

Ai minha sogra morreu ontem

Ai o diabo vá com ela

(bis)

Ai deixou-me as chaves da adega

Mas o vinho, bebeu-o ela.

(bis)

.

Manuel Duarte:

I

Ai adeus ó Manuel Duarte

Ai amigo e companheiro

(bis)

Ai "alevanta-te" e vem comigo

Ai lá p´ró Rio de Janeiro

(bis)

Refrão

Manuel Duarte, foi p´ró Brasil

Chegou ao Porto e tornou a vir

Manuel Duarte, não embarcou

Foi o ingaije que o ingaijou

II

Ai adeus Manuel Duarte

Ai amigo e camarada

(bis)

Ai "alevanta-te" e vem comigo

vamos os dois seguir esta jornada

(bis)

Refrão

III

Ai cinco folhas tem o vime

Ai cinco amores tenho eu

(bis)

Ai quem gosta de mim são elas

Ai quem gosta delas, sou eu

(bis)

Refrão

Vídeos sobre a festa: www.youtube.com/filipemacores

.

Agradecemos a Filipe Camelo as informações prestadas.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Maçonaria e República em Trás-os-Montes e Alto Douro - conferência de Rogério Rodrigues no próximo sábado:

(clicar sobre o cartaz para AMPLIAR)

O nosso conterrâneo Rogério Rodrigues vai brindar-nos, no próximo Sábado, dia 13 de Novembro, com uma importante conferência que promete trazer dados novos para a compreensão do alastrar dos ideais republicanos por terras trasmontanas, normalmente consideradas a periferia da periferia. Neste processo a Maçonaria teve um importante papel, como se sabe. O que não se sabia era a amplitude dos seus efectivos, tais como os da Carbonária, em terras trasmontano-durienses. Através de uma paciente investigação, o jornalista e investigador de história contemporânea Rogério Rodrigues promete trazer-nos alguns dados novos.

Sobre o autor, embora dispense apresentações a todos o que o conhecem, é natural de Torre de Moncorvo, com raízes no Peredo dos Castelhanos, tendo aqui exercido actividade de professor de Língua Portuguesa no Ensino Secundário, por altura do 25 de Abril de 74. Enveredou depois pela carreira jornalística, tendo passado por jornais e revistas de referência como o Diário de Lisboa, O Jornal, revista Sábado, Público (grande repórter desde a sua fundação), a Visão, tendo integrado o gabinete de Projectos Especiais da LUSA. Esteve na fundação do semanário O Ribatejo e do GrandAmadora, de que foi director. Foi ainda director-adjunto de A Capital entre 2004-2005. Colaborou ainda em vários projectos televisivos e radiofónicos, com destaque para o Rádio Clube Português, em tempos mais recentes. Escreveu vários textos de filmes e documentários, designadamente "Colonias e Vilões", "Gente do Norte", "Encomendação das Almas" e de séries, como "Portugal de faca e garfo" (em parceria com Afonso Praça).
É autor de vários livros de poesia ("Livro de Visitas"), ficção ("A outra face da morte") e ensaio ("História da Educação em Portugal"), tendo prefaciado e apresentado inúmeros livros de autores vários.
Ganhou o prémio literário António Botto (poesia), como o original "Nome nomeio" e o primeiro prémio de jornalismo/Reportagem instituído em 1984 pela Associação 25 de Abril para o melhor trabalho sobre o 25 de Abril (título: "Abril: 10 anos depois").
Um dos campos de interesse de Rogério Rodrigues é a história contemporânea, sobretudo de Portugal, com destaque para a República, movimentos de esquerda (nomeadamente sobre o PCP) e a Maçonaria. (Fontes: Pacheco, F. A., Brito, L., Rodrigues, R., Torre de Moncorvo-Março de 1974 a 2009, entre outras).
Resulta deste breve apontamento curricular que a escolha não poderia ser melhor para nos falar destes temas.

A conferência realiza-se no auditório do Museu do Ferro, contando a iniciativa com o apoio do município. - É sábado à tarde, com início às 15;00 horas.

Ver mais nestes endereços:

CMTM (site): http://www.torredemoncorvo.pt/historia-da-maconaria-e-ideais-republicanos-em-destaque-no-museu-do-ferro-e-da-regi-o-de-moncorvo

Almanaque Republicano (blog): http://arepublicano.blogspot.com/2010/11/centenario-da-republica-em-torre-de.html

Mainstreet (blog): http://weber.blogs.sapo.pt/1110863.html

Agenda do Centenário (com mapa): http://agenda.centenariorepublica.pt/index.php?prop_1%5B%5D=0&prop_2%5B%5D=0&distrito=4&month=11&year=2010&option=com_content&view=article&id=47&Itemid=1

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Operário morre em serviço

“SENHOR, eu Te ofereço as estrelas!


As luzes do bairro!


As sombras que o luar faz, nesta noite tão calma!


As fragas, os murmúrios, o silêncio!


As mariposas nocturnas, que rondam a Tua lâmpada!


(…)”


– Padre Telmo Ferraz, "O lodo e as estrelas", 2ª. ed., 1975.(Clicar sobre as fotos para AMPLIAR)



Dia 4.11.2010, pouco depois das 17;00h – Seguíamos, de carro, pela antiga E.N. 325, quando vi os homens-aranha pendurados no alto dos postes da alta tensão. Admiráveis na sua coragem, esticando os pesados cabos pendurados nos postes novos (ou renovados). Não me contive e parei o carro. A máquina fotográfica estava à mão. Disparei ora para um, ora para outro poste, um do lado do Vale das Latas, outro para o lado de cima da estrada.
Há profissões de risco. E de coragem. Como será estar a mais de 30 ou 40 metros do solo, suspenso? – a vida por um fio. Ah, devem ter infalíveis sistemas de segurança, pensei.
Dia 10.11.2010 – seis dias depois, vi a trágica notícia, através de um link deste blog para o jornal “A Bola” (ver coluna do lado direito): um dos “spider-man” tinha falecido em consequência de uma queda. Tinha 28 ou 29 anos, disseram-me depois, era de nacionalidade brasileira, estava a residir temporariamente no Carvalhal (freguesia do Felgar). Trabalhava havia 6 anos na empresa, dizia o jornal. Afinal tinha-me enganado sobre a infalibilidade da segurança. Ou seria a inevitabilidade do Destino. Imaginei a dor do outro lado do Atlântico.


Quanto custa termos em terra, acesas, as estrelas, as luzes do bairro? - Recebe, Senhor, nas Estrelas, o operário que vivia no alto.


Txt. e fotos de Henrique de Campos