Fotografia: João Costa
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Plácido Souto - a obra e o artista
Exposição de Escultura em Ferro de Plácido Souto, no Museu do Ferro
É hoje (dia 26 de Fevereiro) inaugurada a exposição de Escultura em Ferro, de autoria de Plácido Souto, no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, pelas 15;30 horas.
Plácido Souto, natural de Caminha e residente em Vilar de Mouros, começou de muito jovem a trabalhar o ferro, primeiro como aprendiz, mais tarde como ferreiro e depois serralheiro. Trabalhou ainda como soldador nos estaleiros navais da Lisnave, no concelho de Almada, e, depois de se reformar, voltou às terras das origens, onde se dedica a trabalhos de escultura em ferro, tendo realizado várias exposições que, com assinalável êxito, têm percorrido os concelhos da região de Entre-Douro e Minho e da vizinha Galiza.
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E porque de artes do ferro se trata, impunha-se a apresentação da obra deste artista-ferreiro, ou ferreiro-artista, no espaço do Museu do Ferro.
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Se vai estar por Torre de Moncorvo este Sábado à tarde, não perca esta oportunidade de visitar a exposição e de conhecer o artista convidado!
A mostra ficará patente até ao final do mês de Março e poderá ser visitada no horário normal do museu, todos os dias de terças-feiras a Domingos, entre as 9;30h-12;30h e das 14h-17;30h.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Amendoeira
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Quadros da transmontaneidade (35)
Agora, quando os releio aqueles que aqui editei, embora veja neles peças de uma cultura que todos nós transmontanos, de uma maneira ou outra, carregamos, mas, dizia eu, embora os considere como tal parecem-me peças desgarradas, sem nexo. É como se não se integrassem, como se estivessem descontextualizados. Por isso, decido aqui concluí-los, ou seja, talvez os continue a trazer ao meu consciente, pouco a pouco, talvez os continue a passar para o papel, mas ficarão à minha guarda até me parecer que estão todos eles integrados, até me parecer que, no seu todo, já podem dar uma imagem, mesmo que pálida, do tal conceito que chamamos “cultura transmontana”, se é que existe.
António Sá Gué
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Quadros da transmontaneidade (34)
Com perícia, e saber, desferiu dois golpes profundos de alto abaixo. Começou no queixal e só terminou junto ao rabo, que o Ti Madanelo já tinha cortado e mandara assar nas brasas da fogueira onde continuavam a crepitar os rijões e os toros de castanheiro. A fatia da barriga saiu inteira, exactamente como se fosse a tampa de uma lata de sardinhas de conserva.
- Tem bons fígados – disse, em tom de chalaça, o Ti Joaquim Cortador depois de avistar o fígado e não encontrar sinais de doença.
De seguida excisou os bofes que lavou com água corrente. Extraiu a bexiga e deu-a aos raparigos, que por ali andavam, e fizeram dela bola de futebol. Pediu que lhe trouxessem o tabuleiro onde despejou as tripas.
- Pronto!… Já tendes com que vos entreter – disse, maliciosamente, às duas mulheres que pegavam no tabuleiro, uma de cada lado.
E assim foi, durante mais de duas horas, ali estiveram de cócoras, na abrigada do palheiro, a desfaze-las, como se dizia, para significar a extracção dos interstícios untosos que ligam as diferentes circunvoluções intestinais.
Já o animal pendia na viga da adega, já o sarrabulho estava sobre a mesa e o vinho corria nas goelas, quando elas chegaram da tarefa delicada, que só consideravam completa depois de serem reviradas e limpas.
António Sá Gué
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Quadros da transmontaneidade (33)
A matança nunca foi trabalho, sempre foi festa, mas se se pode dizer que havia alguma tensão terminou agora, agora mesmo, depois dos fachoqueiros serem extintos, depois do Ti Chico achar que era tempo de os apagar, que o lume também se quer temperado.
– Tudo o que é excesso é maleita – aconselhou.
Em conjunto, sempre em união de esforços, o animal voltou a ser içado para o banco.
Agora, é tempo de lhe “fazer a barba” que a esfrega com pedras e cortiças, entremeada com jorros de água do cântaro, às vezes dispersa pelo crivo do regador já está no fim, já não acrescenta nada à barrela do cochino que, ao longo da ceva, nunca tomou banho, ouvia-se nas conversas brejeiras e quase sempre maliciosas d' Os Simples. Agora, trabalhavam as facas, as faquinhas e o facalhão do Ti Joaquim Cortador, que raspava, o lombo bojudo do animal, agarrando com ambas as mãos em cada uma das extremidades. Todos os refegos, todas as dobras da pele, desde as orelhas aos pés, eram raspados, limpos pelas pontas das facas que todos traziam consigo, e que retiraram dos bolsos das calças já gastas. As cerdas, o cisco, a cinza da palha ardida, em boa verdade o lixo acumulava-se no gume que, de vez em quando, era largado nas arestas do banco, ou em qualquer outro pau das imediações.
- Virem-no de papo ao ar – ordenou o Ti Joaquim Cortador quando lhe pareceu que estava devidamente limpo.
Se fosse cirurgião teria pedido que o colocassem em decúbito dorsal, mas não passava de humilde talhante, embora tivesse ademanes de Galeno: arregaçou as mangas, voltou a aguçar a faca na sua própria aguçadoura, que fizera questão de trazer de casa, pediu um pano que colocou sobre o ombro e preparou-se para abrir o animal: entrar-lhe nas entranhas. Preparou-se para dar a sua aula de anatomia anual aos restantes que, agora, se limitavam a manter o corpo do animal equilibrado, segurando pelas patas, e seguiriam, com olhar de basbaque, todos os golpes certeiros que se adivinhavam.
António Sá Gué
(Continua…)
sábado, 29 de janeiro de 2011
Quadros da transmontaneidade (32)
Para quem não conhecer o verdadeiro espírito da matança há-de crer que depois do cerimonial de morte, sempre muito masculino, tudo terminou. Depois da morte consumada do bicho, depois de o sacrifício ter sido aceite pelos penates, é tempo de cada um recolher a casa, voltar à rotina religiosa do ano, voltar-se para a venerável Tellus, esperar pelo abrolhar, rezar pela sua floração, agradecer-lhe as colheitas, mesmo que não tenham sido abundantes. Mas, não! Este é apenas o princípio do fim, o princípio da festa que há-de terminar lá pela tarde dentro.
- Já não mexe – disse o Ti Madanelo, ao mesmo tempo que lhe assentava uma palmada no lombo, apanhando todos de surpresa. – Este é bem melhor que o do ano passado – como que a gabar-lhe o tamanho dos presuntos.
- O do ano passado já não lhe tenho o paladar – respondia-lhe o Ti Chico, para quem o último era sempre o melhor.
Agora, que a agonia do animal terminou, a descontracção parece ter regressado. As larachas sucediam-se, voltaram as conversas que se têm entre homens, voltaram os dichotes sobre a pujança do animal que, no seu estertor de morte, ainda foi capaz de espinotear e “dar nas partes masculinas” ao ti Zé Maria.
Arrumado que foi o banco, ao qual regressaria mais tarde para ser devidamente raspado e aberto, o animal descia agora aos toros de amendoeira, paralelamente colocados, em jeito de pira, onde havia de ser devidamente chamuscado: purificado pelo fogo. Será? Haverá, nesse gesto, também algo de mais transcendente?
As cerdas crepitavam, o calor emanado pelos fachoqueiros de palha obrigava o grupo a raspar a pele do animal com sachos e calagouças, sempre à distância, sempre a verbalizar umas carvalhadas com alguma mofa que pousou no pescoço, ou a unha que não cedia e que, nem mesmo as mãos calejadas do Ti Chico suportavam tamanho calor.
António Sá Gué
(Continua…)
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Paisagens de inverno, por terras de Moncorvo
Outra instantâneo da neve, hoje de manhã - jovem souto localizado nas proximidades do cruzamento das Quintas da Nogueirinha.domingo, 23 de janeiro de 2011
Quadro da Emigração – Reencontros!

Esta fotografia foi tirada por Gérald Bloncourt, em 1966, e correu o mundo português. Bloncourt foi um dos fotógrafos mais famosos a retratar e acompanhar os primeiros portugueses em França durante os difíceis anos da emigração clandestina. A fotografia encontra-se, pela primeira vez e a cores, no seu blogue (http://bloncourt.over-blog.net), donde se pode aceder a uma galeria de imagens extremamente representativas deste período.
Estas são as palavras plenas de emoção que Bloncourt expõe, de peito aberto, no seu blogue, quando reencontrou a menina que fotografara há 45 anos:
"Reencontrei a menina do bairro de lata de St-Denis.
Ela tem 52 anos. É casada e tem três filhos. Ela é professora.
Ela chama-se Maria da Conceição.
Ela vive em Portugal.
Fotografei-a em 1966 no bairro de lata português de St-Denis.
É uma imensa alegria para mim e sinto-me muito emocionado.
O que poderemos fazer para assinalar este reencontro e festejar este acontecimento?
Espero que partilhem comigo esta grande emoção que me sufoca."
Nota: Esta é uma das fotografias que constará do meu próximo livro acerca da emigração. O reencontro do fotógrafo e da menina já se deu após o momento em que Bloncourt me tinha cedido a fotografia para o livro.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Quadros da transmontaneidade (31)
- Ó carvalho no carvalho… deita-lhe as mãos às unhas, aperta com força, finca os cotovelos na barriga e puxa… carvalho – increpava o Ti Madanelo, pelo claro, quando viu o Ti Biqueirão, atrapalhado, à procura de encontrar a pata que lhe tinha escorregado da mão e já estava a ficar convencido de que não eram capaz de o pôr em cima do banco.
Mas, depois de muita força e sabedoria, as oito arrobas de chicha, bem medidas, lá acabaram por ser arrastadas, erguidas e deitadas sobre o banco pela bravura do grupo que, agora, se debatia, napoleónicamente em linha, encostados ao longo do lombo para mais fácil se protegerem do espernear feroz e constante do animal. E entre maldizeres e gargalhadas o Joaquim Cortador, sempre à cabeça do animal, atava-o fatalmente ao banco. Deu-lhe 5 voltas bem puxadas e com a corda sobrante fez uma laçada sobre a mesma. O focinho do bicho avermelhou-se, os olhos raiaram-se-lhe de sangue, os grunhidos eram agora de sufoco. Metia dó. O holocausto estava prestes a ser consumado. Por respeito os homens calaram-se. O Ti Joaquim apontou a faca, apalpou o osso com a mão canhota e espetou na direcção do coração. Ainda não tinha golfado o primeiro jorro e já a Tia Rabiça vinha com o alguidar na mão, a mexer o vinagre e sal, mistura que minutos antes tinha preparado e havia de evitar que o sangue se tomasse. Uma voz manda afastar o raparigo que furava entre homens e que, talvez, por reminiscências ancestrais de caçador, tudo queria ver. Os grunhidos foram diminuindo à medida que jorro de sangue fumegante, dirigido pela inclinação ligeira que o matador dava à faca, caía no alguidar de barro que e a mão ensanguentada e corajosa não parava de mexer.
António Sá Gué
(Continua...)
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Festa de S. Sebastião

Hoje é dia do Mártir S. Sebastião. Na freguesia da Cardanha, a festa realiza-se no próprio dia. Já na Adeganha e em Torre de Moncorvo (na Corredoura), a festa tem lugar no próximo fim-de-semana.
O culto de S. Sebastião em Torre de Moncorvo deve remontar ao século XVII, período que datará a capela existente no Largo da Corredoura, património da Junta de Freguesia. É costume neste dia efectuar-se na parte da tarde, a arrematação de vários produtos da região, em louvor do Santo.
Participe!
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A EXTINTA CULTURA DO SUMAGRE EM TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO IV
5.1 – Atafonas existentes e sua preservação
Atafonas são os moinhos onde se processava a redução da folhagem do sumagre a pó, para posterior comercialização. Sabemos de algumas poucas atafonas que, embora em semi-ruína, ainda existem na nossa região transmontano-duriense, uma em Avarenta, no concelho de Valpaços, outra em Vale de Figueira, no concelho de S. João da Pesqueira - esta muito curiosa por ter a base em xisto - e ainda uma terceira em Muxagata, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, que é a que está melhor conservada,apesar de instalada num casinhoto de xisto transformado em loja de gado onde cosbitam dois cães,uma mula e meia dúzia de pombas...Há registos da existência nos anos vinte do século passado de cinco atafonas ainda a funcionar no concelho de Foz-Coa, uma na freguesia de Mós e de quatro na própria vila. A referida freguesia de Mós era, à semelhança de Avarenta, de Tinalhas e de outras terras do nosso país, conhecida como terra de sumagreiros e uma crónica do século XVIII de um fidalgo desta terra D. Joaquim de Azevedo a descreve como tal: «…Mós fica em um estreito valle por onde corre um pequeno ribeiro que vem de S. Marcos e junta com outro dito Escorna Bois entre montes cheios de amendoeiras e sumagres, com boas hortas, muitas cebolas e algum pão…». Mas era nos taludes soalheiros, de solos pedregosos e pouco férteis para outras culturas, que o sumagre se instalava, como vem registado noutra excelente monografia, esta sobre os sumagreiros de Avarenta no concelho de Valpaços, da autoria do Dr. Adérito Medeiros Freitas: «…Além dos sumagres espontâneos que abundam no monte baldio e nas ladeiras incultas, por entre o fragoedo, havia muitos sumagres plantados por estaca, nas ladeiras mais pobres de húmus…». Nesta aldeia de Avarenta a atafona está devidamente referenciada por este autor e o município de Valpaços está atento a este raro património, mas é possível que outras existam na região transmontano-duriense, deixando aos leitores esse desafio. Estas atafonas podem confundir-se com os antigos lagares de azeite, dada a semelhança da mó de granito – geralmente apenas uma – e com um eixo central que é um tronco de madeira que permitia rodá-la sobre um pio geralmente também em granito - em Vale de Figueira este pio foi feito com lajes de xisto - sendo essa grande roda puxada a força de animal, muar ou bovino. As folhagens do sumagre eram previamente secas ao sol e depois batidas com uns manguais para ficarem em pequenos pedaços que posteriormente eram moídos nas referidas atafonas, ficando reduzido a um pó que era ensacado e encaminhado para o comércio.

Curiosamente – e como grande exemplo para nós transmontanos e durienses – é na Beira Interior, numa povoação de forte tradição sumagreira denominada Tinalhas, no concelho de Castelo Branco, que se organizou no ano 2000 uma agremiação cultural ligada ao seu passado sumagreiro: « SUMAGRE - Associação de Dinamização e Salvaguarda Patrimonial ».
5.3 - Publicações
Em Trás-os-Montes a única referência que conheço é o título do Boletim da Junta de Freguesia de Argoselo, no concelho de Vimioso que tem como título « Sumagre », o que dá ideia da consciência que os habitantes de Argoselo têm do seu forte passado peliqueiro e sumagreiro.
Nota: Deixo o meu agradecimento ao Sr. Dr. Adérito Freitas pela cedência de uma foto e um desenho. Bem haja.
Bibliografia
Adérito Medeiros Freitas – 2006 – « Os sumagreiros de Avarenta – cultura,colheita, transformação e exportação do sumagre » - Edição da Câmara Municipal de Valpaços.
Artur Carrilho – 1940 – « Ainda o sumagre » - artigo na revista « Gazeta das Aldeias »
Francisco Ribeiro da Silva – 2001 – « Porto e Ribadouro no século XVII – a complementaridade imposta pela natureza » - artigo na « Revista da Faculdade de Letras »
JOSÉ ALVES RIBEIRO
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
A EXTINTA CULTURA DO SUMAGRE EM TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO III
Foi na transição do século XVII para o XVIII que a produção e comércio do sumagre atingiram o auge na região de Riba-Douro. Com o desenvolvimento da viticultura, sobretudo a partir da demarcação pombalina, este cultivo fora progressivamente substituído pela vinha, entrando em declínio, declínio esse apenas interrompido nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, devido à grande crise provocada pela filoxera, em que o sumagre, juntamente com o cânhamo e o tabaco foram as culturas alternativas à vinha.
Mas nos meados e finais do século XVII o valor do sumagre transaccionado no mercado portuense para uso interno e exportação chegava a suplantar - o que é surpreendente - o próprio valor do comércio do vinho!
Mas já anteriormente, no século XVI há registos relativos ao comércio desta matéria prima, como um testemunho do cronista Rui Fernandes, datado de 1531 numa sua crónica muito curiosa intitulada « Descripção da Roda de Lamego duas Légoas» onde relata: «…neste circhoito das sobreditas légoas 15.000 arrobas de çumagre que carregavam pera lixboa e ao algarve e às ilhas e pera todo entre douro e minho e tralos montes e pera a beira…»Em registos do século seguinte, iremos confirmar a grande expressão da produção e comércio deste produto com a transcrição de um excerto de um excelente artigo do Professor Francisco Ribeiro da Silva da Faculdade de Letras da Universidade do Porto intitulado « Porto e Ribadouro no século XVII – a complementaridade imposta pela natureza »: «…os produtos comercializados oriundos de Riba-Douro eram naturalmente o vinho, de que numa acta da Câmara do Porto de Agosto de 1647 é registada a entrada de cerca de 20.000 pipas por ano de vinho de Lamego, o azeite, os citrinos e o sumagre...numa complementaridade em que o Porto, por terra ou por via fluvial, abastecia a região de Ribadouro de géneros básicos como o pão, o açúcar, o peixe seco, o sal, o vasilhame para o vinho, panos e instrumentos diversos…» Nesse artigo é–nos indicado que as primeiras notícias da exportação de sumagre datam de 1584 para Bristol pelos mercadores António Reimão e Anrique Soli, 200 e 210 arrobas respectivamente, sendo a arroba neste caso correspondente a vinte quilos. A exportação em sacos de pó de sumagre para apoio à indústria de curtumes do norte europeu - grande produtor de couros mas sem clima para esta planta mediterrânea – foi aumentando sempre ao logo dos séculos XVI e XVII e fora tal que nos finais do século XVI os sapateiros do Porto queixaram-se da falta e da carestia do sumagre para a curtimenta dos seus couros a tal ponto que foi editada uma regulamentação camarária que obrigava a que pelo menos metade do sumagre chegado ao Porto tivesse de ser comercializado no mercado interno e não pudesse ser exportado, o que obrigava também ao preço mínimo de 160 réis a arroba. Há registos de 1627 que nos informam de um movimento comercial anual de 20.000 sacos de cerca de 2 arrobas cada, ou seja, cerca de 40.000 arrobas e em 1667 esse valor ultrapassava as 54.000 arrobas, tendo Lisboa como destino cerca de 21.000 e o restante a exportação para a Alemanha, Inglaterra, França e Holanda. Como já foi referido, a seguir a este auge começa algum declínio desta cultura com a expansão do sector vitivinícola, sendo o registo do comércio de sumagre em 1786 de apenas 30.000 arrobas. Não obtive dados da época da filoxera em que ainda houve algum ressurgimento do sumagre, mas sabe-se que a partir dos anos vinte do século passado o declínio foi sendo gradual e o último registo que possuo é de um artigo do Eng. Agrónomo Artur Carrilho, publicado na «Gazeta das Aldeias » em Janeiro de 1940, em que refere que o sumagre do concelho de Foz-Côa passa por ser dos melhores do mercado pela riqueza em tanino e pelo cuidado na apresentação, refere ainda que no concelho de S. João da Pesqueira, em Vilarouco e Valongo dos Azeites, se costuma misturar a flor à folhagem na sua preparação o que faz baixar a sua qualidade. Também no referido artigo faz referência ao aumento do preço devido à guerra, para um escudo e escudo e meio quilo do sumagre do Douro. Deve ter sido nestas décadas de quarenta e cinquenta que se cultivaram os últimos sumagres na nossa região, pois actualmente o sumagre é apenas mais um dos muitos arbustos que enfeitam a paisagem, enriquecendo a deslumbrante paleta de cores no douro outonal, mas também menos bem-vinda em situações de planta invasora, porém como cultivo é apenas uma memória do passado, e as atafonas que se mantêm estão também elas próprias votadas ao esquecimento e em vias de total ruína. Como memória que é, e dada a importância que já tivera, é de justiça que algo se faça para que essa mesma memória seja preservada, talvez através do recentemente criado Museu do Douro, sendo naturalmente nesse sentido que este nosso artigo está a ser elaborado.
Representação gráfica de uma atafona.
José Alves Ribeiro
(continua)
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
A EXTINTA CULTURA DO SUMAGRE EM TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO II
3.1 – Os sumagres na indústria dos curtumes
Já foram sendo indicadas algumas das potencialidades desta espécie e das espécies afins, mas iremos centralizar a matéria deste artigo na sua utilidade maior que é a sua utilização como fonte de tanino para a indústria de curtumes, embora tivesse caído em desuso a partir do início do século XX pela obtenção de outras fontes de taninos naturais em condições mais económicas, como cascas de quercíneas e o desenvolvimento pela indústria química dos taninos sintéticos, sendo o tanino fundamental na preparação de peles e couros, extraindo–lhes gorduras e conferindo-lhes certas propriedades de textura, matiz e durabilidade. Há que relembrar aqui a grande ligação da comunidade de origem judaica trasmontana, quer ao comércio de couros e peles – ainda actualmente são referenciados os peliqueiros de Carção e Argoselo no concelho de Vimioso, por exemplo – quer à correlacionada indústria de curtumes. Há que referir que o uso do sumagre nos curtumes passava por uma prévia preparação da matéria prima, sendo necessária a sua secagem e redução a pó em moinhos próprios, semelhantes aos do azeite, denominados atafonas. Era esse pó, muito rico em tanino, que se usava na indústria. De facto os sumagres são arbustos que apresentam em média uma proporção de 20 a30 % de tanino na sua constituição, embora variando com as espécies e com as variedades. As referidas variedades do Rhus coriaria, que é o melhor e mais usado, variedades essas já referidas com as designações de «macho» e «fêmea», apresentam teores de tanino diferentes, mais elevado na variedade macho – 25 a 30% - e menor na fêmea - 22 a 25 %.
Pormenor do sumagre, tendo como fundo Torre de Moncorvo. ( foto: João Costa- 2005)
3.2 – Outras utilizações dos sumagres
Para além do uso na curtimenta de couros e peles, também já se indicou o uso de algumas espécies como tintureiras na indústria têxtil, havendo ainda outras utilizações a assinalar e algumas são muito antigas, embora ainda em uso no nosso tempo, como é a sua utilização como condimento. Já no tempo do Império Romano se usavam na culinária pastas de sumagre, extraídas dos frutos, de sabor um pouco amargo, semelhante ao do limão, e esse uso como condimento ainda se verifica nalguns países do Médio Oriente, assim como se inclui como um dos ingredientes na preparação do denominado «zahtar», condimento salgado muito apreciado no mundo árabe, à base de sumagre, gergelim e tomilho. Também não se pode deixar de indicar o uso de certas espécies de sumagres como plantas medicinais, havendo alguns de cujas folhas e talos se preparam pastas utilizáveis na cura de eczemas e outros problemas de pele, sempre e só de uso externo, e só de certas espécies pois neste género existem espécies tóxicas e até venenosas, sendo uma das mais tóxicas o Rhus toxicodendron L.,como o próprio nome científico indica.
José Alves Ribeiro
(continua)
domingo, 16 de janeiro de 2011
Quadros da transmontaneidade (30)
O dia acordou frio, como era preciso, para curar bem a carniça. O Joaquim Cortador, homem habituado a estas andarilhanças, afiava a faca junta à pia das pitas onde, de quando em vez, a lavava e lhe tirava as partículas da pedra abrasiva. Depois, passava o fio entre o indicador e o polegar, lentamente, como se estivesse à procura de alguma falha e, de seguida, experimentava-o na unha do polegar esquerdo. Como matador afamado que era não queria falhar. Não queria passar nenhuma vergonha, tinha que lhe acertar à primeira. Não queria que durante a chamusca, mal o bicho sentisse a quentura da palha a arder, e ainda com algum sangue quente nas veias se levantasse e desatasse a correr rua fora, como se contava em todas as matanças.
O Chico, de regador na mão, lavava o banco que durante todo o ano esteve acantoado, sem serventia, acantoado no palheiro. O Manel da Lage, já lá vinha com a samarra pelos ombros. A lareira já crepitava, rodeada de tisnadas panelas de ferro que haviam de derreter os rijões.
- Atão vamos lá! – instigou o Chico quando achou que a equipa estava pronta.
Fez um sinal afirmativo com a cabeça, agarrou a corda já com o nó corrediço preparado e dirigiu-se para o cortelho. Entrou. O grupo ficou à entrada a dar palpites, a estimar o peso, a estudar-lhe as manhas. O reco deu duas roncadelas e refugiou-se no canto mal o viu aproximar-se. Com o laço ao dependuro na mão direita e na tentativa de o acalmar foi proferindo sons mansos e brandos, leves palmadas no lombo, como se o quisesse enganar, esperançado que ele desejasse suicidar-se e abocanhasse o isco que, com todo o jeito, lhe colocava à frente dos olhos, no fundo, como se ele não percebesse o destino trágico que o aguardava. Nada! Foram várias as tentativas para lhe meter o laço na boca mas só pela força o conseguiram. Só depois de várias voltas ao cortelho, depois de vários arranques capazes de assustar os seus parentes javalis a operação foi consumada. Agora, já nada o salvaria do trágico destino. Já de nada lhe valiam os grunhidos estridentes que se faziam ouvir nas redondezas, já de nada lhe valiam os safanões caprinos que na tentativa de se soltar da corda esticada, e bem presa ao queixal, o encaminhava em direcção ao banco.
António Sá Gué
(Continua…)


