Aspecto da festa do Felgar de outros tempos - anos 60 (Arquivo particular)Como nos foi prometido pela Drª. Júlia Ribeiro, em comentário ao "post" sobre a Festa do Felgar, aqui está o conto (verídico) sobre uma ocorrência da sua infância, na Festa do Felgar de há muitos anos:
Largo da Capela, pelas 9 horas da manhã.
Não sei se a festa nesse ano coincidiu com o meu aniversário. Sei que eu andava de palamenta rica: vestidinho vaporoso cor-de-rosa, com folhos e laços. As pessoas que vinham em grupos para a missa, diziam “Que linda boneca”. Eu olhava espantada, porque não via boneca nenhuma. A minha avó respondia “Muito obrigada”. Eu mais espantada ainda, porque aquelas pessoas não tinham comprado amêndoas nem licor. A minha mãe, radiante de frescura e felicidade, também respondia qualquer coisa que eu não entendia. Mais tarde soube que dizia : “A quem meu filho beija, meu coração adora”.
Mas vamos lá começar a prometida estorinha: andava eu por ali a brincar, de vestido cor-de-rosa, enquanto a minha mãe e a minha avó chamavam os fregueses, melhor dizendo, as freguesas, pois eram as mulheres quem tinha voto na matéria, “Ah, amiga, veja esta amêndoa! Olhai, qu’alvura, até os olhos cegam nela!” .
(A minha mãe e a minha avó vendiam amêndoa coberta, súplicas, cavacas , económicos e licor. Era uma forma de, em dois meses de verão, ganhar o dobro do miserável salário de camponesas durante os outros dez meses do ano).
Era antes da missa e do sermão que apareciam as boas freguesas: aquelas que queriam a amêndoa logo ao abrir dos sacos, sem um grão de poeira. Eram as que mandavam encomendas para os familiares nos Brasis, que nesse ano não tinham podido vir. Regateavam. Pagavam menos dois ou três mil reis, mas a minha mãe retirava-lhes cem gramas no peso. E toda a gente ficava satisfeita. Também vinham os próprios brasucas, mais as esposas, gordalhufas, cheias de cordões e anéis de ouro, para levar amêndoa coberta a patrões e amigos lá no Brasil. Pagavam com fartos rolos de notas que , impantes, desdobravam aos olhos cobiçosos dos menos afortunados.
Por último, já quase a missa a começar, veio um casal, aí nos seus trintas. Pediram um quilo de amêndoa, mas em três sacos, que em casa ela dividiria melhor. Depois da missa voltaram, fizeram festas à menina, que é linda c’mo sol e perguntaram se podiam levá-la a almoçar com eles. “Estamos ali, numa sombrinha atrás da capela”. “Muito obrigada, mas a minha filha não sai daqui”. “Que pena! Temos cabritinho assado no forno e um arrozinho... Até já estendi uma manta, para a menina não se sujar. Venha ver”. “Agradeço, mas já disse: a menina não sai daqui”. “Pronto, mulher, deixa lá” disse o homem. E virando-se para a minha avó ” Mas se estão com algum medo, a avó pode vir também e come connosco. Gosta de cabrito assado?”. A minha avó achou que não tinha mal nenhum. Pegou-me pela mão e fomos até à tal sombrinha. De facto, lá estava a manta estendida no chão . Não quis comer, disse-me “Porta-te bem” e voltou a manquitar para a venda da amêndoa que era onde fazia falta.
Mas a minha mãe não estava sossegada. “Vou lá espreitar”. Voltou numa corrida “O homem já dorme e a mulher está a dar pão-de-ló à menina”. E , mais descansada, continuou a apregoar as amêndoas branquinhas e o licor de canela.
Talvez tenha passado uma hora, talvez mais um pouco e a minha avó, sem dizer nada, foi espreitar. Lançou logo um grito que alvoroçou a festa. A menina, o casal, o macho tinham desaparecido. A gritaria da minha mãe... nem se consegue imaginar! “Roubaram-me a filha. Roubaram a minha menina”.
A Tia Maria Trovões foi logo chamar a Guarda que andava par ali. Parou a festa. Toda a gente, em grande alarido, foi buscar machos e mulas, até apareceram dois automóveis, mas estradas só havia uma e má. Homens e mulheres, raparigos atarantados, pelo meio cães a ladrar desorientados... A Guarda Republicana pôs-se à frente daquele povo e meteram-se por veredas e carreiros. A uns cinco ou seis quilómetros encontraram o casal. Eu ia a cavalo no macho toda contente.
Veio tudo para o posto da Guarda de Moncorvo. A Tia Trovões e as filhas ficaram a tomar conta da mesa da minha mãe. No posto da Guarda a mulher, por entre lágrimas, gritos e soluços, explicou que não tinha filhos, que não podia ter filhos. A minha mãe e todas as mulheres presentes tiveram pena dela. Mas o mais extraordinário foi quando o tenente da Guarda disse ao casal : “Mas vossemecês estavam convencidos que nós não vos encontrávamos? “ e o homem, até aí calado, respondeu: “O mundo é muito grande! “ Pela cabeça de todos passou a mesma ideia “ Brasil” . Com algum espanto, o tenente perguntou-lhes : “Então vossemecês onde vivem?” “Em Mazouco” , foi a resposta.
por: Drª. Júlia Guarda Ribeiro "Biló"
