quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Quadros da Emigração - Poema: "O Tempo, A Bocarra do Inferno"
A Bocarra do Inferno
Tempo da Ida
A mente conjectura
Meandros recônditos
De infindáveis caminhos a percorrer,
Porque o Tempo
Se revela infinito
Quando, em cada momento, a ânsia do pensamento percorre,
Desenfreada,
Todas as arestas dos segundos, dos minutos e das horas
e faz a soma
a contar com a contagem mansa, cadenciada dos dias de férias
Tal qual ribeiros cristalinos
A escorrerem tranquilos
sob o sol tórrido
e os zumbidos embriagados das abelhas
pelas longas e intermináveis tardes transmontanas da infância...
Tempo da Estada
Paisagens
Lágrimas
Encontros
E
Desencontros
Fundura
Perplexidade
Anseios
Revolta
Incompreensão...
Fuga
E
Fugacidade
Tal qual bandos de aves
Que levantam voo
Mal chega a hora da debandada
Para territórios quentes ou frios
Onde se exilam no travo amargo do Tempo
Que teima em não chegar...
Tempo da Volta
Paisagens
Rostos
Gestos
Silêncios
Lágrimas
Encantos
E
Desencantos...
Tal é a bocarranha do inferno,
Que o Tempo,
Voraz
E
Traiçoeiro,
Deixou tudo na incompletude
Do ano derradeiro.
Tempo,
Bocarra que (me) devora e tritura
A lisura arreganhada
Do Regresso adiado pelo Tempo.
sábado, 30 de abril de 2011
Saraivada de estevas

aqui, o céu juntou-se à terra!
e, em saraivada de estrelas,
a manhã abriu-se em vasta
e perfumada toalha de estevas
de flores, de branco, bordadas em ponto matiz,
em fio doirado, amarelo, de cheias delícias,
suaves ternuras, subtis! vidas de amor,
em vermelho ponteadas de dor!
Em todo o seu esplendor!
A terra floresce em estevas primaveris!
Texto enviado por Arinda Andrés
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Abril
Lilases na terra morta, misturando
A memória e o desejo, atiçando
Raízes inertes com a chuva da primavera.
A Terra Sem Vida -T.S. Eliot
pelo envio deste excerto de T.S.Elliot (1888-1965), poeta, dramaturgo e crítico literário inglês nascido nos E.U.A., prémio Nobel de Literatura em 1948.
Fotos: João Costa
segunda-feira, 21 de março de 2011
Ó amendoeiras!
amendoais de riqueza!
alegria das raparigas,
cheios de encanto e beleza!
Vou pintar a minha terra!
da cor das amendoeiras;
começo aqui pela serra,
desço mesmo às ladeiras.
Vou pintá-las de branco,
em flor, imaculado;
de rosa é o manto,
de amor e de cuidado.
Cuidado na ventania,
ou até na chuva grossa,
caem pétalas de alegria,
ficam os sonhos de rosa.
Há perfume pelos campos,
cheira a rosas e a jasmim,
abelhinhas, trinados em bandos,
deixam-me saudades sem fim!
Vou pintar as amendoeiras,
de trabalho e de ilusão
pinto de verde as ladeiras
cachuchos do meu coração!
São verdes e saborosos
de casca tenra e macia
de cachuchos tenros, viçosos
de leite, pinto grãos de alegria!!
Vem o sol, traz-lhes mimos,
vê-los crescer é um regalo,
de pele de leite finos,
pinto amêndoas de estalo!
Pintei assim as ladeiras
verdes cachuchos a sorrir,
do poio às ladeiras
pinto amêndoas a florir!
Já duras e bem sequinhas,
do verde manto despidas.
Em ouro se tornaram,
até há amêndoas paridas!
e pinto com esta tinta
de cantigas, as mulheres,
vestem-se de blusas de chita,
vermelhas aos malmequeres.
E trazem saias rodadas,
as belas apanhadeiras!
e andam assim dobradas,
alegres e galhofeiras!
e falam da sua vida
e da minha ou da tua
os homens, em vara fina,
varejam amêndoa dura.
Depois em sacos de estopa,
feitos em belo tear,
seguem arrobas de amêndoa,
p´ra casa, é bestas carregar!
E é uma animação,
sempre, sempre a reinar!
cozinha, quarto, sala ou salão,
na rua, em toldes, a secar!.
e em pás de fina madeira,
toca, toca a revirar
de casassós à ladeira,
meus sonhos hei-de pintar!
Pinto cestos de verga
até bacias de lata
amêndoa depois de seca,
é uma quebra bem farta.
E agora vamos lá todos
de Urros, ó mocidade!
cantar ao desafio,
partir grão, à vontade!
E agora sentem-se aqui,
tomem lá o malhadouro!
o grão é p´ro cestinho,
alqueire cheio é dinheiro.
Há presunto e queijo da talha,
postas de linho, é alva a toalha,
pão, bolas, salpicão e vinho,
“há barulho! ide lá ver quem ralha”.
Malhadouro malhadeiro
em açafates de verga,
o Petromax é luzeiro,
dá luz que bem se enxerga
Ó mocidade de Urros, que fizestes
da vossa fartura e riqueza?
ver os montes assim tristes
não vos dá dor de cabeça?!
RETRATOS DA MINHA INFÂNCIA.
Tininha, de Urros, outrora uma vila!
( …que teve foral antes de Moncorvo)
GLOSSÁRIO:
Barulho= desordem, desentendimentos, que, por vezes, antigamente, poderia provocar sérios danos; pequenas sublevações, garalmente na rua, que poderiam arrastar muita gente, como assistência.
Cachuchos= amêndoa, ainda tenra, coberta por casca tenra. de cor verde.
Ralhar=criticar, berrando e insultando , admoestar
Enviado por Arinda Andrés
Fotos : João Costa
Poesia de PedroCastelhano (Rogério Rodrigues), apresentada no passado Sábado em Moncorvo
O auditório da biblioteca municipal foi pequeno, no passado Sábado à tarde, durante a apresentação do livro de poesia de Pedro Castelhano (aliás Rogério Rodrigues), evento aqui anunciado, no âmbito das comemorações do Feriado Municipal de Torre de Moncorvo.Tendo usado primeiro da palavra o Sr. Presidente da Câmara, Engº. Aires Ferreira, e o editor, Dr. A. Baptista Lopes (editora Âncora), a análise aprofundada da obra e do autor couberam ao distinto Homem de Letras, Prof. Doutor Amadeu Ferreira.
No final, o autor encerrou com algumas palavras sobre os contextos em que foi produzindo este material poético, fruto da sua "carpintaria" literária, mencionando as referências que lhe serviram de inspiração (Luisa Neto Jorge, Jorge de Sena e outros). Citando Sena, afirmou que "a Poesia é talvez a coisa mais inútil que há, mas não conheço nada mais importante".
«(...)
Carpe diem
homem que morreste só porque tinhas razão
e o futuro era a tua margem mais próxima.
Olha os desertos que regorgitam de santos
à procura do pecado. De monofisitas,
de idólatras, de iconoclastas. De gente
de sandálias, enquanto o Império cai
e não se determina por certo qual o sexo
dos anjos. Vêm os normandos, vieram
os lombardos, as hordas, as espadas
e Roma resistiu e o Homem sobreviveu.
(...)»
E ainda este excerto do poema à neta:
«(...)
Quando passeares na cidade, não te esqueças das montanhas.
Ali se escondem os espíritos, os abandonados pelo tempo,
os banidos ladrões falhados no assalto à alegria.
Serei uma sombra, um nome vago, um morrer
sem memória. Não serei, Obscuro nulo de nada. Talvez um grão.
Estou de abalada para dentro de mim, sem bornal nem seguro.
Mas como eu sonho que um violino me toque como
se eu fosse o violino e a sua melodia. Flor,
deixa-me os espinhos e respira. Sinto que é brisa.
(...)»
Poderíamos ainda aqui destacar os famosos "Nove Poemas de Novembro", de que o autor já publicara excertos no TorredeMoncorvoinBlog, como por exemplo: http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/11/nove-poemas-de-novembro.html
... ou ainda o arrepiante "Stabat Mater", também já nosso conhecido:
http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/06/stabat-mater.html
ou outros mais ainda, só agora saídos à luz do dia... Mas fazer aqui mais excertos tiraria o prazer da leitura, agora encadeada, no delicado suporte de papel, que é, também ele, uma cuidada obra de arte, no formato e nos acabamentos, começando pelo tom de amarelo-dourado da capa. Este é o primeiro título de uma nova colecção de poesia, com a chancela da Âncora, denominada "Universos". Parabéns também ao editor pela ousadia e...Obrigado Rogério (aliás, Pedro Castelhano), por este presente de Primavera em dia de S. José!
Texto: N.Campos
Fotos: N.Campos e Higino Tavares
____
Para quem quiser ler o livro aqui referido, pode requisitá-lo na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, ou adquiri-lo na livraria Clássica, nesta vila. Os interessados residentes em outras paragens, podem contactar a Âncola Editora, Aven. Infante Santo, 52, 3º esqº. 1350-179 Lisboa - ancora.editora@ancora-editora.pt e nas livrarias da especialidade.
segunda-feira, 14 de março de 2011
"(Re)cantos d'Amar Morto" de Pedro Castelhano, para o feriado municipal
sexta-feira, 11 de março de 2011
Ainda a flor da amendoeira...
http://labodegadelasolana.blogspot.com/2010/02/la-flor-del-almendro-y-unos-amigos.html
Tradução para português, em: http://torre-moncorvo.blogspot.com/2010/03/lenda-das-amendoeiras-numa-versao.html
.
Nota: as fotografias são de autoria do nosso amigo António Rómulo Duque (ilustre felgarense a residir e a trabalhar em Braga, a quem agradecemos a cedência destas imagens).
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Ainda um poema natalício...
Então aqui vai:
.
É Natal cai o Nevão
No seu quarto agasalhados
O padrinho e o João, dormem muito sossegados.
.
O vento tanto ralha, tanto brama
Que o Padrinho apavorado
Acorda na sua cama...
.
e diz logo ouvindo tal:
- Eu já sei o que isto é,
deve ser o Pai Natal
a descer pela chaminé..?!!!
.
Com este Conto de Natal, da sabedoria da minha mãe que me presenteava todos os Natais, em tempos escassos dessa altura. (...)
Esperança Moreno
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Quadros da Emigração - Natal
Quintas do Corisco: O Freixo que durante gerações tem sido esgalhado fundamentalmente para apascentar o rebanho e que, assim o ano o permita, bebe as águas férreas do ribeiro que lhe molha as raízes.A ancestralidade grandíloqua do Freixo altaneiro que me saúda pela manhã no ecrã do computador apaziguou-me neste Natal a ansiedade que se gera em mim quando não o visito nesta quadra. Apesar de saber de antemão que me esquivarei ao torrão nativo, afinal a minha casa, o meu lar e a minha família também são doutros lugares, não tenho conseguido em anos consecutivos dissipar a apreensão e a vontade de partir. Acabo sempre por fazer a viagem na hora de preparar o Natal. Este ano comecei pela Árvore Ambrosíaca. Às vezes é assim: não me chega ir a Londres buscar o bacalhau, o polvo congelado e as tronchudas. O que desta vez ainda nem fiz!
ÁRVORE de NATAL
Espreito o Freixo
da janela da tecnologia
e do progresso
e apetece-me ataviá-lo
com os enfeites
do Natal:
clicaria sobre a Estrela mais brilhante
que o alumiasse
até à raiz da penumbra,
a Geada que lhe pintasse de branco
o verde-escuro das folhas,
e os sulcos profundos
do velho tronco rugoso
donde jorraria a Ambrosia
para a Consoada da Humanidade.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Poema de Natal, por Pedro Castelhano
Quando o Natal chegar...Quando o Natal chegar
liberta o pirilampo e liberta a Luz
arruma a ternura e arruma a casa.
E areja o sótão da tua infância.
Quando o Natal chegar
dá música aos surdos
e palavra aos mudos
afaga laranjas nas mãos frias
e figos secos ao luar
e amêndoas de Agosto a quem chegar
e limões, e ácidos limões, em teu lugar.
Quando o Natal chegar
à beira do rio olha a outra margem
cheia de sombras, pedras e perdas
e abre os braços, colunas e pontes
e começa a tocar a alma qual piano
na translúcida mágoa de nada tocar.
Quando o Natal chegar
Jesus já passou sem passar
na barca do tempo, entre margens
sem rio, mas à beira de naufragar.
Quando o Natal chegar
não leves granadas para casa
nem bombas para qualquer lugar.
Caça pombas ao anoitecer, morcegos
da tristeza e olhares cegos de vazios.
Quando o Natal chegar
olha os filhos como se só
então nascessem
e os dias fossem cristais
partindo grãos de romã,
tão sensíveis ao ouvido
mas sem pena nem sentido.
Quando o Natal chegar
adormece à beira dos violinos
com a loucura dos deuses
e a tristeza do Mozart.
Que os deuses devem estar loucos
porque a lareira está-se a apagar.
Quando o Natal chegar
cuida das prendas e ofertas
aos que nunca mais vão chegar.
Entre pedras e perdas
guarda o amor de guardar
que a face da mãe ondeia
e o pai adormece a lacrimejar.
Quando o Natal chegar
a nordeste de tudo, mais vale
encher o saco de Nada
e percorrer a noite, até ao abrigo
dos campos da quimera calcinada.
Com o saco cheio de Nada
visita Iraque e o Afeganistão.
Toca às portas da Palestina
e canta dor às portas da prisão.
Quando o Natal chegar
enche o saco de Nada.
Pode ser que por tanto Nada
algo te queiram dar:
um filho, um sorriso, talvez luar.
Quando o Natal chegar
talvez amor e amar.
Dádiva por dádiva,
aceita, é de aceitar.
por: Pedro Castelhano
- Felicidades
um Natal partilhado !
Foto: N.Campos
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
ANDORINHA

Andorinha, andorinha
que não migras!
Que da esquálida caverna
espreitas os meses de invernia
no aconchego da bojuda galeria
e, hirta, conservas na lembrança
o sussurro mansinho
do marulhar das águas da ribeira
e a cantiga das cigarras a ondular
sobre as dobras gastas das montanhas.
Andorinha, andorinha
que não migras!

Que na Primavera
és a primeira a abandonar o ninho
para abraçares,
com a tua plumagem negra
e o branco do teu peito,
o lado oposto da escarpa,
carregando contigo a ponte invisível
da Fraga do Arco.
Andorinha, andorinha
que não migras!...
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Quadros da Emigração - Richmond Park
sobranceiro e de vigia
mandou que me sentasse.
a brotar seiva,
mais orvalhada ainda
do que a do corte da cabaça,
tem mantido a compostura,
porque bebe nas raízes
da imponente e altiva árvore
que lhe deu a vida.
chuva abundante,
neve e geada fria
trespassaram-no
todos os dias.
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Valha-nos Santo António!
"Ó meu querido Santo António
já que és tão milagreiro
Para pagar às Finanças
Manda-nos muito dinheiro".
por: MARIA CARMELINA FERNANDES,
in Lágrimas e sorrisos, ed. Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, 2001
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Pujança absoluta - por Isabel Mateus
Rebentaram todas as nascentes e a água escoa-se livremente nas direcções talhadas pelo homem ou pelo seu próprio ímpeto A pujança ABSOLUTA!
De manhã, ao acordar,
A sonoridade insistente e ruidosa
Dos pardais
Disputava o murmurejar de todas as nascentes.
O kuku do cuco
Espraiava-se pela tarde quente
A respirar a Primavera
Na flor da urze,
Na mera da esteva
E no cor-de-vinho da arçã.
O meu apetite da infância
Consumou-se na salada de azedas
Que arranquei à parede
E levei, num manhuço,
À hora do almoço,
Para dentro de casa.
Fonte do lameiro escavada na fraga e coberta pela lousa, cuja vegetação espessa lhe suga as entranhas.
O viço das azedas.
A inércia do Homem e a exuberância da Natureza. Se ainda por aqui andasse a Ti Grabulha, levantaria pedra por pedra até a pia dos porcos voltar a ter serventia.por: Isabel Fidalgo Mateus (poema, fotos e legendas)
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Ana Moura, Patxi Andión, Pessoa e Moncorvo
Imagens que o olhar tem saboreado em Torre de Moncorvo e que encontraram um canto para seu embalo.
João Costa
sexta-feira, 5 de março de 2010
Conforme as Estações
No Verão as montanhas
Espreguiçam-se na sua imensidão
O céu confunde nas suas entranhas
O amarelo do trigo com sofreguidão
O trigo ceifado
As folhas mortas cobrem o chão
Com as primeiras águas ainda de Verão
Os homens rasgam a terra apoiados ao arado
Caem as geadas certeiras
Rompe o dia com ar cortante
No entanto, com carácter persistente e entusiasmante
As azeitonas são apanhadas das oliveiras
A neve derretida
Brilha o sol no ar
Forçando as amendoeiras a desabrochar
E derramando-se o perfume como coisa prometida.
.
Assim aparece Trás-os-Montes… (Isabel Mateus, Évora,1987)
Este foi o poema com que, aos 18 anos, retratei o Portugal rural transmontano, a Minha Terra, no Alentejo, no Jornal de Parede do Lar dos Trigais da Ordem das Doroteias. Poema singelo, descritivo, a emanar autenticidade, brilho e, principalmente, a determinação, coragem e o sacrifício das suas gentes. Talvez por isso, para as recompensar do trabalho árduo e constante ao longo das estações do ano, não considerei a correria desenfreada das águas das ribeiras, nem a “Rebofa”, que este ano, como noutros, também por estes lados acontecem. Pelo contrário, a ênfase recaiu de supetão na essência de Trás-os-Montes: a flor branca ou ligeiramente rósea das amendoeiras.Afinal, elas são a metamorfose do homem transmontano!
Vale a pena visitar Trás-os-Montes, o homem e a sua flora nesta época do ano!...
.
Textos de: ISABEL MATEUS
Fotografias: JOÃO PINTO V. COSTA








