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terça-feira, 17 de maio de 2011

Quadros da Emigração – Ósculo

Chamando-se Castanheirinho,
Inertes Lhe morreram as galhadas tenras.

Pejado pela chuva e ventoso,
O ósculo chegara-Lhe numa manhã de Abril,
Pela boca voraz e o riso aparatoso
Do pleno ribombar da euforia primaveril.

Chamando-se Castanheirinho,
Inertes Lhe morreram as tenras galhadas.

Ficava a (outra) Vergôntea a tremeluzir
A fragilidade translúcida da verdura
Que, sob os raios de luz, se veio a traduzir
Numa imagem real de candura:

É o ventre do minério rasgado da Serra
Que de novo procria,
É o bafejo doce, cálido e fulvo da terra
Que tudo recria!

Chamando-se Castanheirinho,
Também Lhe (re)nasceram galhadas tenras...


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Quadros da Emigração - Natal

Quintas do Corisco: O Freixo que durante gerações tem sido esgalhado fundamentalmente para apascentar o rebanho e que, assim o ano o permita, bebe as águas férreas do ribeiro que lhe molha as raízes.


A ancestralidade grandíloqua do Freixo altaneiro que me saúda pela manhã no ecrã do computador apaziguou-me neste Natal a ansiedade que se gera em mim quando não o visito nesta quadra. Apesar de saber de antemão que me esquivarei ao torrão nativo, afinal a minha casa, o meu lar e a minha família também são doutros lugares, não tenho conseguido em anos consecutivos dissipar a apreensão e a vontade de partir. Acabo sempre por fazer a viagem na hora de preparar o Natal. Este ano comecei pela Árvore Ambrosíaca. Às vezes é assim: não me chega ir a Londres buscar o bacalhau, o polvo congelado e as tronchudas. O que desta vez ainda nem fiz!


ÁRVORE de NATAL

Espreito o Freixo
da janela da tecnologia
e do progresso
e apetece-me ataviá-lo
com os enfeites
do Natal:
clicaria sobre a Estrela mais brilhante
que o alumiasse
até à raiz da penumbra,
a Geada que lhe pintasse de branco
o verde-escuro das folhas,
e os sulcos profundos
do velho tronco rugoso
donde jorraria a Ambrosia
para a Consoada da Humanidade.

domingo, 19 de setembro de 2010

Quadros da Emigração - Imigração

Chegou-me a notícia de Trás-os-Montes de que o Ti Malapeira já não se “astreveu” com a apanha da amêndoa. Chamou os “búlgaros” à jeira e pagou-lhes a jorna a 9 contos, sem almoço incluído. Este ano a amêndoa ainda não ficou nas amendoeiras...


Aguarela de Cristina Borges Rocha

O Malapeira: personagem de Outros Contos da Montanha e símbolo do apego ao terrunho.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Pujança absoluta - por Isabel Mateus

Rebentaram todas as nascentes e a água escoa-se livremente nas direcções talhadas pelo homem ou pelo seu próprio ímpeto

A pujança ABSOLUTA!

De manhã, ao acordar,

A sonoridade insistente e ruidosa

Dos pardais

Disputava o murmurejar de todas as nascentes.

O kuku do cuco

Espraiava-se pela tarde quente

A respirar a Primavera

Na flor da urze,

Na mera da esteva

E no cor-de-vinho da arçã.

O meu apetite da infância

Consumou-se na salada de azedas

Que arranquei à parede

E levei, num manhuço,

À hora do almoço,

Para dentro de casa.

Fonte do lameiro escavada na fraga e coberta pela lousa, cuja vegetação espessa lhe suga as entranhas.

O viço das azedas.
A inércia do Homem e a exuberância da Natureza. Se ainda por aqui andasse a Ti Grabulha, levantaria pedra por pedra até a pia dos porcos voltar a ter serventia.
.
por: Isabel Fidalgo Mateus (poema, fotos e legendas)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Emigração na literatura regional - 4

E para (momentaneamente) rematar este tema da emigração na literatura dos autores da região, nada melhor do que ficar com quem suscitou o assunto, ou seja, a Professora Isabel Mateus, respigando um excerto do epílogo do livro "Outros contos da montanha" (2009), intitulado "O lavar dos cestos":

«Regressava para morrer. Mas não sem antes cumprir a promessa. É que o Gandonha já não lhe poderia valer; agora era também ele só espírito no Paraíso e na Terra não havia mais ninguém que lhe saldasse a dívida.
Enquanto longe da Granja não se sentiu sozinha, porque nunca se separou da lembrança, do exemplo, da coragem e da autodeterminação com que os seus moradores enfrentavam as fatalidades e louvavam a alegria, quando também a recebiam. Emigrante torna-viagem trazia na bagagem essa mesma companhia e todas aquelas vivências do contacto com outras culturas e, ainda mais importante, com as pessoas. Muitas das viagens que não fez, completou-as nos livros de escritores-viajantes antigos e modernos e nas conversas que teve com os amigos espalhados pelo mundo.
Chegou nas férias de Verão à casa materna; agora sua e dos seus irmãos. De chave pronta na mão, abriu a porta principal e invadiu o silêncio sepulcral que dali emanava. Numa fúria arrebatada de fazer a luz do dia entrar, escancarou a janela das traseiras, que ligava a moradia ao ar fresco e puro da Serra do Valente. De seguida, num retrocesso premeditado, tirou o ferrolho à da fachada principal e os raios de sol faiscaram pelos quatro cantos da ampla sala. Repetiu este gesto pelos outros compartimentos e, até que a fria aragem da madrugada a aconselhasse que estaria na hora de cerrá-las, não houve fresta que se mantivesse fechada! (...)
Ela morreu realmente ali. Os seus ossos descansam no alto dos Lombinhos onde a torga, a carqueja, a giesta, a esteva, o alecrim, a bela-luz e o rosmaninho lhe aromatizam a sepultura, os pinheiros lhe fornecem a sombra e a abrigam da chuva e os pássaros a entretêm com a sua cantilena».
Tal como na lenda dos elefantes, não raro os que partiram fazem a última viagem para morrer no local de onde saíram.
N.Campos