domingo, 11 de julho de 2010

Quadros da transmontaneidade (15)


O Arraial: a impaciência da descarga da meia-noite

As quatro silhuetas do conjunto vaguearão pelo palco sincronizando os movimentos com o ritmo da nova canção. O chalrar das guitarras subirá de tom. O vocalista anunciará a próxima. A quarta será lenta, convidará ao enlace de corpos. A massa infrene que há pouco deambulava pelo terreiro, e porque não tem par feminino, desaparecerá, aproveitará para matar a sede, que é sempre muita, no bar improvisado da comissão de festas.
E porque já passa da meia-noite e não de detectam sinais de estrondos lacrimejantes o mordomo-principal chamará ao alto-falante, e pela terceira vez consecutiva, o sr. pirotécnico. E os AND SO ON, como que para se fazerem ouvir, aumentarão o som, agora ao ritmo de um medley de influência brasileira.
– Atenção ao Sr. pirotécnico… atenção ao Sr. pirotécnico… – e o fogueteiro como que a criar impaciência combinada de véspera, ou evitar que o povo arrecolha à choça antes de tempo, não dá sinal de vida.
E o conjunto, sem descanso… sem parar… voltará aos ritmos animados. Voltará o bailarico, a às vezes a borrachice.
De repente, um morteiro.
- PUM!
As consciências, acrisoladas no tempo longo de monotonia e solidão, voltarão a ser postas à prova. O outão da Igreja iluminar-se-á pelo clarão. O povoléu, como que em transumância, afastar-se-á das paredes de cantaria, procurará locais centrais que lhe permitirão ver melhor a tão anunciada descarga.
-PUM! – Ribomba outro.

(Continua)

ANTÓNIO SÁ GUÉ
Imagem: João Costa

2 comentários:

Anónimo disse...

Até parece que se ouviu o PUM! na fotografia! Fazendo lembrar a explosão de uma super-nova... - Será o que se passa em baixo uma réplica do que se passa em cima? ou vice-versa? Em cima como em baixo também há extinções, trajectórias meteóricas, novos mundos em expansão, até podemos imaginar sons cósmicos que ainda ouvimos depois de já se terem extinto, há alguns anos-luz... Como ainda retenho nos ouvidos os primeiros acordes do primeiro Carviçais-Rock e outros retêm o silvo agudo do combóio do "apita Abílio!" a cruzar a passagem de nível da Fonte do Prado...
Abraço ao Sá Gué por mais estas memórias da trasmontaneidade (e ao Vasdoal pela "explosão" de cor captada numa qualquer festa da Trasmontânya).
N.

Anónimo disse...

Escrita que nos situa de facto no meio do arraial, com PUM e tudo!

Obrigada.

Isabel